Autor Convidado: Alon Feuerwerker

Alguns amigos fazem chacota com este jornalista porque volta e meia construo linhas paralelas entre acontecimentos atuais e passagens da Segunda Guerra Mundial. Um amigo em especial vive me criticando, por eu tentar enxergar alguma grandiosidade em eventos que no futuro não vão merecer –diz ele- nem um rodapezinho mixuruca nos livros de História. Mas a mim isso importa menos. Não dá para saber previamente que fatos vão ganhar permanência histórica, ficar como marcos do nosso tempo. Portanto, para não comer mosca, é recomendável que você preste atenção em tudo que se passa à sua volta e tente enteder o que está acontecendo. Vamos então recorrer novamente à guerra de 1939-1945. Há uma polêmica, daquelas intermináveis, sobre o lançamento das bombas atômicas americanas em Hiroshima e Nagasaki em agosto de 45. Uns dizem que o foi o último ato da Segunda Guerra Mundial. Outros defendem que foi o primeiro da Terceira. As explosões nucleares contra o império do sol nascente teriam sido –segundo essa última corrente- um ato de dissuasão dos americanos contra os soviéticos. Faz algum sentido, mas só algum. Eu continuo achando que os Estados Unidos fizeram o que fizeram porque contaram quantos soldados americanos teriam que morrer numa guerra convencional até que o Japão capitulasse. Mas, voltemos à vidinha. Tem gente que não entende por que o PSDB radicaliza nesta reta final de uma eleição presidencial quase perdida. Ora, em primeiro lugar não existe eleição perdida de véspera. Se Luiz Inácio Lula da Silva perder para Geraldo Alckmin, vai ser uma surpresa e tanto. Mas, como se diz em Minas Gerais, eleição e mineração só depois da apuração. Em segundo lugar, e trabalhando com a hipótese mais provável, a eleição de Lula, está na cara que os lances de radicalização retórica de tucanos e pefelistas não são apenas as salvas finais de artilharia da eleição de 2006. Talvez possam ser mais bem caracterizados como os primeiros tiros da eleição de 2010. A situação eleitoral de Lula é muito boa, mas a política nem tanto. Por uma razão básica: depois de ir às urnas para eleger o presidente, o povo volta para casa e só vai se manifestar quatro anos depois. Já os canais de participação política da elite estão permanentemente abertos: no Congresso, na imprensa, na sociedade civil e na assim chamada opinião pública. Você pode até se eleger contra a vontade da opinião pública, mas governar sem ela são outros quinhentos. As estatísticas são cristalinas, basta olhar as pesquisas. Os votos que podem dar mais quatro anos a Lula no Palácio do Planalto vêm dos pretos (e pardos), dos pobres e dos nordestinos. Não fosse por essa turma, Alckmin seria o favorito na corrida presidencial. Mas se a turma do Lula (os pretos, os pobres e os nordestinos) tem musculatura para eleger os presidentes do Brasil, a turma do Alckmin já mostrou no passado que tem energia e tutano para infernizá-los e fazê-los sangrar. E é bom que ninguém se engane: eleito Lula, haverá algumas semanas (dias) de falsa trégua. Se houver. Depois será pau puro. Os últimos movimentos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso são um bom esboço do futuro. Como diria James Carville, “é a luta de classes, estúpido!”. Uma decepção e tanto para os que a imaginavam morta e enterrada.

Por Alon Feuerwerker (www.blogdoalon.com.br)

Publicado também no Blog do Noblat em 13/09/06

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