2005, o ano que não terminou

O assunto a seguir não tem a menor importância para a corrida presidencial de 2010. Como se sabe, há alguns anos o brasileiro decidiu que eleição é uma coisa, corrupção é outra. Como disse o presidente Lula um ano antes de ser reeleito, caixa dois todo mundo faz. Pagar marqueteiro em paraíso fiscal também. Deve ser por isso que a recente decisão do juiz Roberto Schulman sobre o mensalão não deu ibope.

O titular da 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro bloqueou os bens do empresário Marcos Valério (quem se lembra dele?) e do ex-procurador da Fazenda Nacional Glênio Sabbad Guedes. Segundo uma denúncia do Ministério Público acatada pelo juiz, o entrosamento da dupla era essencial para o bom funcionamento do valerioduto. Glênio seria pago por Valério para encobrir a lavagem de dinheiro nos bancos BMG e Rural, com pareceres manipulados.

Traduzindo: aí estava, para a Justiça, uma peça importante do esquema que escoava dinheiro público para o caixa particular do PT.

Nunca antes na história deste país (nem depois) se teve notícia de uma engrenagem como essa em que o partido do presidente da República se valia do poder para sugar, direta e sistematicamente, os cofres da nação. O esquema PC, que levou à queda de Collor, não chegou nem perto disso.

De seu puxadinho eleitoral na Casa Civil, a ministra candidata de Lula, Dilma Rousseff, acusou a imprensa de estar querendo trazer 2005 para 2010. Ela quis dizer que a mídia deseja ressuscitar artificialmente o mensalão em ano eleitoral.

Não se sabe se Dilma acredita em assombração. Mas, pelo menos nesse caso, deveria acreditar. O ano de 2005 foi enterrado vivo com mensalão, mensaleiros e o não sabia de Lula, tudo na mesma cova rasa. A decisão do juiz Roberto Schulman vem mostrar que a alma penada de 2005 ainda vai puxar o pé de muita gente.

Dilma não foi à festa de aniversário de José Dirceu, onde bate ponto todos os anos. Por que terá a ministra candidata, desta vez, dado apenas um telefonema de parabéns ao aniversariante? Estaria evitando trazer 2005 para 2010?

Não dá para entender tamanha preocupação. Dirceu, apontado pela Procuradoria-Geral da República como o chefe do mensalão, vive hoje numa espécie de spa judicial. A corte máxima do país dorme tranquilamente sobre seu processo. Tudo pode acontecer em 2010, menos o julgamento dos réus do PT no Supremo Tribunal Federal. Por uma dessas mágicas da política, a quadrilha do mensalão é intocável em ano de eleição.

E, por uma coincidência da vida, o chefe do mensalão e o chefe de Dilma Rousseff são a mesma pessoa. Quando caiu em desgraça, José Dirceu fez sua companheira de armas suceder-lhe na Casa Civil, para dar continuidade a sua obra de aparelhamento do Estado, uso da máquina contra os adversários (dossiê FHC, ou banco de dados) e a favor dos amigos (um abraço ao Sarney), tentativa de controle da imprensa e outros expedientes chavistas.

Dos ideais de seu mentor, Dilma só não tentou (ainda) cassar a autonomia do Banco Central. Vai que dá uma zebra melhor deixar passar a eleição.

No geral, Dirceu está feliz da vida com a performance de sua criatura, cuja campanha presidencial vai coordenar discretamente enquanto o Supremo não acorda. Se forem vitoriosos, o fantasma de 2005 se reduzirá a uma unha encravada, daquelas que o companheiro Delúbio resolvia com um pé nas costas e um charuto na boca. E Dilma poderá ir ao aniversário de Dirceu em 2011 com um presentão, que ele mesmo escolherá na prateleira dos ministérios.

Por falar em Delúbio e em assombração, foi registrada uma reaparição do ex-tesoureiro do PT, lendário zelador do caixa do mensalão. Ele estava numa faculdade no interior de Goiás dando palestra sobre ética. Os mortos-vivos de 2005 estão prontos para reencarnar em 2010. E a culpa é da imprensa.

Fonte: Revista “Época” – 29/03/2010

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