Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Ano novo traz consigo uma palavra forte: risco

2016, o ano em que viveremos perigosamente

Uma das constatações mais básicas de que o cenário global passará por profundas alterações em 2016 é a de que 2015 não foi bom para ninguém.

Geoestrategicamente, o mundo está mais instável. Individualismos nacionais ganharam força. Prolonga-se um sentimento de “desglobalização” nos grandes pactos políticos e comerciais. Todos têm de lidar com o flagelo do terrorismo e com a ameaça de um clima global indesejadamente mais aquecido.

Na economia, tornou-se senso comum nestes últimos 365 dias anunciar que os países emergentes deixaram de ser grande fonte de expectativas positivas para converter-se em razões de preocupação.

Há muito de exagero nisso tudo. Os EUA, embora já no quinto ano de expansão econômica e com taxa de desemprego de apenas 5%, ainda terão de lidar com os efeitos colaterais de uma política monetária ultraexpansiva –e eleições que podem levar à Casa Branca o exótico Donald Trump.

Embora muitos acreditem que o líder nas pesquisas de opinião pública para a chapa republicana cometa calculados exageros retóricos, política exterior não se faz apenas de fundamentos. As palavras e os símbolos também são importantes. Isso tudo comporta imenso potencial de desentendimentos nas relações com grandes parceiros como China e México.

Também a Europa encontra-se longe de um cenário harmonioso. Se a crise econômica parou de piorar, os desafios vêm de uma eventual saída do Reino Unido da dinâmica de integração continental (o que a imprensa em língua inglesa chama de “Brexit”), do atordoante fluxo migratório e do tipo de liderança que a Alemanha está disposta a exercer na União (dilema que os próprios alemães esquivam-se de responder).

A China, se impressiona com seus US$ 11 trilhões de PIB, seguramente não cresce mais a velocidades superiores a 8%. Pequim tem de encarar o imenso desafio de blindar seu sistema financeiro com mais credibilidade e transparência e, ao mesmo tempo, modular a evolução da economia política chinesa para além do foco em comércio exterior e investimento. E, pairando sobre isso tudo, continuar a propulsionar o país como superpotência para além da plataforma exportadora.

Ainda assim, num primeiro momento iniciativas como o Fundo da Rota da Seda, o Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento e o Banco dos Brics suscitam mais interrogações que respostas sobre a efetividade da China como epicentro de um novo sistema de relações internacionais.

A Índia de Narendra Modi ainda desfruta da boa vontade doméstica e internacional com as reformas modernizantes pontificadas por seu primeiro-ministro e com a segurança com que o mercado global enxerga a macroeconomia indiana, administrada pelo prestigioso presidente de seu banco central, Raghuran Rajam.

É também alvissareira a conexão que Modi estabeleceu com o vizinho Paquistão, movimento atenuante entre duas potências nucleares que sempre se nutriram de rivalidade histórica.

Em 2016, Modi terá de continuar a lidar com burocracia e corrupção em seu país, provavelmente as mais densas da Ásia, além de manejar conservadores no Parlamento e nas Forças Armadas, que não veem sua política de aproximação com o Paquistão com bons olhos.

A Rússia, apesar de dois anos seguidos de pesada recessão, entrará em 2016 com Vladimir Putin mais forte do que nunca. Retomar a Crimeia, “enfrentar os padrões duplos” do Ocidente e combater o terrorismo com mão forte conferem-lhe grande capital político interno.

Para uns, isso desloca Moscou à posição mais central que ocupa no xadrez global desde o fim da Guerra Fria. Para outros, a sólida autoridade do titular do Kremlin significa uma espécie de “reczarização” –o fim da “transição democrática” a que a Rússia parecia lançar-se com o esgotamento da União Soviética.

Ninguém, nem mesmo os mais críticos observadores da cena russa, vislumbra um quadro em que Putin não seja protagonista. O preço de tal inércia na desejada alternância de poder é alto. Baixos índices de confiança empresarial, custo elevado para o financiamento de empresas, importações mais caras e fuga de cérebros. E o valor depreciado nas commodities energéticas de que a Rússia tanto precisa torna a perspectiva ainda mais complexa.

Desalento com o Brasil

Na América Latina, destaca-se ainda o desalento com o Brasil, embaralhado em aguda contração econômica e disfuncionalidade política. O contrapeso vem da grande esperança com o aperfeiçoamento institucional –efeito multiplicador da Operação Lava Jato.

Desponta na região, contudo, a vigorosa inflexão argentina. Não apenas mudanças de política econômica, mas de visão de mundo.

O exame das diretrizes propostas por Mauricio Macri em termos de democracia representativa e direitos humanos, papel da imprensa, função do Mercosul e da Aliança do Pacífico faz parecer que os governos Kirchner ocorreram meio século atrás.

Gideon Rachman, principal articulista internacional do “Financial Times”, sugere em recente coluna que, em 2015, todos estiveram no limite. O mundo foi “golpeado, ferido e aterrorizado”.

2016 promete ser ainda mais complexo. O ano novo traz consigo uma palavra forte: risco.

Diz-se que em conjunturas de grande provação os sentidos ficam mais agudos e as percepções, mais cristalinas. Tomara que assim seja, pois em 2016 viveremos perigosamente.

Fonte: Folha de S. Paulo, 30 de dezembro de 2015.

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