Sábado, 10 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

30 anos de feitiçaria econômica

Enquanto o governo e a sociedade queimam as pestanas com o recrudescimento da inflação, é sempre bom lembrar que não há receita mágica para combater a escalada dos preços. Um exemplo disso pode ser lembrado no próximo dia 28 de fevereiro, que marca o aniversário de uma das mais catastróficas feitiçarias econômicas que o Brasil experimentou. Estamos falando do Plano Cruzado, que em 1986 congelou preços e salários e acabou se mostrando um grande cabo eleitoral do pleito realizado naquele ano. Alguma dúvida? É só ver o desempenho do partido do governo: o PMDB fez todos os governadores, com exceção de um estado, elegeu 37 senadores de 49 possíveis e 260 deputados federais, quase 54% da Câmara.

Foi a primeira experiência heterodoxa que o país viveu. Muitos tiveram a ilusão de que inércia inflacionária só poderia ser rompida com esse tipo de mandinga macroeconômica. Em 1989, por exemplo, entrevistei o falecido economista John Kenneth Galbraith para uma reportagem de capa da revista EXAME. Ele foi taxativo em vaticinar que o país precisaria passar por um novo congelamento de preços se quisesse chegar à estabilidade monetária.

Galbraith é hoje mais lembrado por suas frases inspiradas e por ter sido um dos gurus econômicos de John Kennedy do que exatamente por suas contribuições ao cenário econômico mundial. Mas, naquele momento, era mais uma voz de importância que se rendia à heterodoxia.

Interessante perceber como há momentos em que todos entram numa espécie de transe, acreditando em maluquices sem sentido. Num primeiro momento, houve praticamente unanimidade em relação ao Plano Cruzado. Uma das poucas vozes que se levantaram contra foi a do economista Paulo Guedes.

O Plano Cruzado fez água, como se sabe, mas a insanidade coletiva viria mais tarde ressurgir no chamado Plano Collor, quando se tentou fazer uma hiperinflação de laboratório ao confiscar todo o dinheiro da população. Neste momento, pelo menos, houve um número maior de vozes discordantes. Mas a sociedade, de maneira geral, havia ouvido durante muito tempo que o remédio contra a inflação seria amargo. Quando surgiu o Plano Collor, transbordando azedume, muitos acharam que o confisco era a solução.

A inflação deixou marcas traumáticas na sociedade brasileira. Naquela década de 1980, o descontrole das contas públicas era um dos principais fatores da alta dos preços. Hoje, vivemos um momento parecido, no qual o governo investe no crescimento de arrecadação em vez de cortar despesas. O paralelo entre os dois momentos faz sentido, uma vez que em várias ocasiões experimentamos uma espiral inflacionária combinada a um desempenho econômico pífio.

Naquele fevereiro de 1986, o PT era apenas um partido de esquerda que combatia ferozmente a corrupção. Seu presidente de honra, Luiz Inácio Lula da Silva, estava num canto oposto do espectro político a figuras carimbadas como o presidente José Sarney, o então candidato a governador Fernando Collor de Mello e o ex-ministro Delfim Netto. Um de seus eventuais aliados era o senador Fernando Henrique Cardoso, que seria um dos beneficiados pelo Plano Cruzado e reeleito em novembro. Havíamos enterrado a ditadura militar e o país exultava com os ares democráticos.

Hoje, o PT é um partido constantemente envolvido em escândalos envolvendo o mau uso de verbas públicas. Sarney, Collor e Delfim são aliados de Lula – e FHC é um inimigo mortal. E uma meia dúzia de malucos defende a volta da ditadura miliar. Se alguém dissesse que em 2016 isso iria acontecer, garanto que ninguém iria acreditar.

É por isso que não podemos deixar soluções heterodoxas, por menores que possam ser, tomar corpo na cabeça de quem conduz a economia brasileira. Uma pedalada aqui, outra acolá – e as mentes férteis podem começar a pensar bobagens para estancar a inflação. É hora de adotar uma única medida – uma só – para segurar a inflação: cortar os gastos públicos. Ao diminuir o tamanho do estado, todos vão ganhar em serviços, eficiência e estabilidade monetária.

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