Nos últimos meses, os mercados vinham operando na expectativa do início da redução de compra de ativos pelo Federal Reserve (Fed). Tudo começou quando Ben Bernanke disse que esse processo teria início neste ano ou, no mais tardar, no primeiro semestre de 2014.

Como os indicadores vinham melhorando, os agentes passaram a especular (de forma precipitada, para alguns) que o timing desse processo poderia ocorrer agora, em setembro, na reunião do Fed, no dia 17. Acabaram se frustrando.

Bernanke agiu na contramão, negando a se “guiar pelas expectativas de mercado”, afirmando que a evolução da economia ainda não era suficiente para o início desse processo.

Isso aconteceu em paralelo à desistência de Larry Summers por disputar o posto de chairman do Fed a partir de janeiro próximo. Sendo assim, Janet Yellen se tornou a principal favorita para o cargo, pela sua experiência e “boa capacidade de julgamento para atravessar um período complexo para a política monetária como o atual”. Não podemos excluir, no entanto, outros candidatos como Tim Geithner, ex-secretario do Tesouro, e Donald Kohn, ex-vice-presidente do Fed.

Analisemos, a seguir, as ações do Fed, motivos para a manutenção da política de compra; o histórico das atuações desde 2008 e os próximos passos e seus efeitos para o Brasil.

Decisão do Fed

Ben Bernanke justificou a manutenção da política de compra de ativos pelo “estado da economia”, com crescimento ainda modesto, mas também pela votação do limite de endividamento pelo Congresso norte-americano e o aumento dos encargos nos financiamentos imobiliários. Nesse último, observa-se a perda de fôlego nos preços e compras de imóveis, reflexo de treasuries longos esticados, acima de 4,5% anuais. Neste ano, os pedidos de compra de imóveis recuaram 14% e o índice de refinanciamento chegou a 66%.

Sobre outros indicadores relevantes da economia, o desemprego se encontrava em torno de 7,3% da população economicamente ativa (PEA), pelos dados mais recentes, em parte pela desistência das pessoas em procurar emprego, com a atual meta do Fed para este ano entre 7,1% e 7,3%, e não mais 7% como antes aventado. Para 2014, espera-se uma taxa entre 6,4% e 6,8%.

A inflação de 12 meses, pelo CPI [Consumer Price Indexes], se encontra em torno de 1,5%, refletindo a economia ainda fraca, já que o indicativo do Fed está mais próximo de 2,5%. Sobre o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), as estimativas são de crescimento entre 2% e 2,3%, mas é preciso atenção com a possibilidade de ajuste fiscal a partir de outubro. Nesse caso, entramos em mais um fator que justificou a cautela do Fed.

No dia 1º de outubro, termina a tolerância com o limite do endividamento público e as negociações no Congresso devem ser acirradas. Os republicanos não parecem muito flexíveis, exigindo que Obama corte despesas, em especial do Programa de Saúde. Neste período, será votado também o Orçamento de 2014, a se iniciar em outubro, e com este um pacote de ajustes acabará inevitável, caso o governo não aprove a ampliação do teto da dívida, hoje em US$ 16,7 trilhões.

Histórico do afrouxamento monetário

A política atual é considerada não convencional, pelo ineditismo da crise de 2008, sendo a terceira de uma série de afrouxamentos quantitativos adotados, conhecidos como Quantitative Easing (QE). Teve início em setembro de 2012, com a compra mensal de treasuries e títulos hipotecários, no total de US$ 85 bilhões. Antes dessa, a partir da crise de 2008, outras foram adotadas, mas com pouca eficácia. Com a economia norte-americana mergulhada em uma recessão, o forte endividamento e o desemprego das famílias acabaram falando mais alto, por inibir o consumo e os investimentos. Tem-se o conceito de “armadilha de liquidez”, criado por Keynes, na qual ações de política monetária se tornam inócuas para garantir o crescimento da renda e do emprego.

Pode acontecer, também, “empoçamento” de liquidez nas empresas e bancos, visto que estes ficam sem horizonte de recuperação e a incerteza paralisa as decisões. Pelo QE3, cerca de US$ 3,4 trilhões já “inundaram” os mercados, impactando a economia global, com especial atenção para os emergentes, que acabaram com suas moedas apreciadas, afetando as contas externas. Por isso, muitos governantes passaram a falar sobre “guerra e tsunami cambial”. Agora, os “ventos mudaram”. As moedas sofreram fortes depreciações, levando os bancos centrais a apertarem suas políticas monetárias.

Nos EUA, um processo de retomada, embora considerado “modesto”, vem ocorrendo, dados os indicadores “mistos”. Neste caso, destaquemos a geração de empregos insuficiente (no payroll) e a queda da participação de pessoas empregadas no mercado de trabalho, sinalizando que a última taxa de desemprego, de 7,3%, em parte foi enganosa, por mostrar a desistência de pessoas procurando emprego.

O que esperar para os próximos meses

O Fed deve aguardar novos indicadores e o desenlace do impasse fiscal no Congresso para ter elementos mais consistentes. O início da redução da compra de ativos pode acontecer em outubro (na reunião do Fed, no dia 30), em dezembro ou ao longo de 2014.

Efeitos no Brasil

Em maio, depois do fatídico discurso de Bernanke, houve um processo intenso de realocação de ativos globais, com a migração dos mercados emergentes para o norte-americano, considerado “porto seguro”. A taxa de câmbio, em torno de R$ 2,00, foi se depreciando até chegar a R$ 2,45, em agosto. A partir da estratégia do Banco Central de realizar ofertas diárias em leilões de swap e “de linha”, a moeda norte-americana que, no pico chegou a R$ 2,44, no dia 22 de agosto, veio “derretendo”, desde então, até chegar a R$ 2,20, na semana passada.

Embora não descartando turbulências (ou volatilidades) no meio do caminho, acreditamos que a taxa de câmbio dos próximos meses varie mais próxima ao novo “patamar de estabilidade” entre R$ 2,20 e R$ 2,30. Sendo assim, estamos revendo nossa projeção nesta semana para uma taxa de câmbio nesse intervalo. Aguardemos os próximos acontecimentos.

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