A acessibilidade, a população, a cultura e a educação

Por João Bosco Leal

Por recentemente haver me tornado o que se chama de um deficiente físico, tenho sentido o que sentem os outros que o são há mais tempo ou os que já nasceram com qualquer tipo de deficiência física.

Precisei, antes de mais nada, pensar sobre o assunto, o que, confesso, nunca havia feito, para entender que existem centenas e talvez milhares de espécies de deficiências, sejam elas físicas ou mentais e, além disso, entender também quem é “normal” e quem não o é, no que hoje chamamos de “sociedade civilizada”.

E, na realidade, cada vez mais me dou conta de que os “normais” são os que antes eu qualificava como “deficientes” e os verdadeiros deficientes são, na realidade, os que antes eu entendia como sendo “normais”.

Após dois anos impossibilitado de exercer qualquer atividade física ou mesmo de me locomover e agora retornando aos poucos às rotinas comuns do dia a dia que sempre tive, percebo que raramente encontro vaga destinada aos “deficientes” desocupada nos estacionamentos dos supermercados. Noto, sempre, que ela não está ocupada por um “deficiente” como antes eu entendia, mas por um “deficiente” como agora entendo.

Ontem, no supermercado, após fazer as compras que desejava, posicionei-me na fila do caixa destinado aos “idosos, gestantes e deficientes físicos” e lá fiquei, conversando com quem estava à minha frente. Quando eu já seria o próximo e atrás de mim na fila já havia mais umas quatro pessoas, chegou uma senhora de aproximadamente quarenta e poucos anos que, dizendo-se com pressa e com somente dois itens de compras para pagar, pedia para passar na minha frente.

Constrangido, informei-lhe que aquela era uma fila específica, mas que passar ou não à frente de todos os que nela estavam, dependeria da consciência dela. Disse então que estava com muita pressa, motivo pelo qual estava passando, e passou na frente de todos. Mal sabe ela, pensei, que o motivo de eu estar naquela fila ocorreu em um segundo, assim como acontecem a maioria dos fatos e acidentes.

No mesmo dia fui até a agência municipal de trânsito, Agetran, munido dos documentos exigidos, para pleitear uma placa a ser colocada em meu veículo, para que pudesse estacionar, no centro da cidade, nas vagas que estão sendo criadas para os deficientes. Fiquei já muito surpreso ao notar que a referida agência foi transferida do centro da cidade para uma das saídas da mesma, já bem distante do centro, às margens de uma avenida que liga a cidade à uma rodovia.

Num local de muito trânsito, com veículos, ônibus e caminhões passando, não existe, na sede da Agência Municipal de Trânsito (Agetran) de uma capital, uma vaga destinada aos “deficientes físicos”, que lhes facilite o acesso ao local. E, na única rampa de acesso para cadeirantes à calçada do prédio, bem defronte à entrada principal, havia um carro estacionado, impedindo totalmente o acesso por ali, inclusive para os “normais”.

A atendente local deu-me um impresso para ser preenchido com os dados pessoais e a declaração do assunto e disse-me que, após preenchido, deveria voltar até ela para pegar a senha de atendimento. Não poderia entregar-me a senha naquele momento, pois ela só a entregava por ordem de chegada das pessoas e, como eu era deficiente, poderia demorar para preencher e atrapalharia a chamada de outras senhas que viriam após. Fiquei indignado e exigi a senha de imediato, pois, pela ordem de chegada, eu ali estava.

Após ser atendido e mesmo estando com todos os documentos exigidos, entre eles a declaração de deficiência física assinada pelo ortopedista responsável por várias cirurgias a que fui submetido, fiquei sabendo que a resposta para meu pleito ainda demoraria trinta dias.

Como estou residindo em uma capital, cujo prefeito é um médico, me pergunto constantemente se os “normais” seriam realmente os que assim se entendem ou os chamados “deficientes físicos”.

A sensibilidade e a educação certamente estão sendo mais úteis do que a cultura.

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