A arma errada para lutar com o dragão

A presidente Dilma tem afirmado que não negociará com a inflação. Como credo econômico e ladainha política, não seria de esperar outra coisa. O resto do governo se alinha atrás de Dilma. O dragão da inflação bate a nossa porta. É a pior ameaça a um país em plena retomada de sua economia, após duas décadas e meia de desolação financeira. Se o governo promete dar duro na inflação, por outro lado sabemos que lidará com bombas de efeito retardado nos próximos meses.

A indexação dos salários, em 2012, é uma arma apontada contra a estabilidade. Afinal, a inflação já saiu do controle imediato. O sinal disso foi dado pelo próprio Banco Central, ao ditar que os juros continuarão subindo. Mas o remédio do juro alto virou parte do problema, pois o principal endividado é o próprio governo, que paga mais encargos financeiros ao tentar frear o consumo privado.

Tem outro remédio? Tem. É a sempre adiada arrumação da casa, do lado fiscal, se for adotada uma atitude mais inteligente em relação à arrecadação de impostos e ao gasto público. Não se diga que nisso Dilma não mexeu. Ela encontrou um cofre arrombado, com restos a pagar multibilionários, e pisou no freio com uma forte reprogramação orçamentária. Os números preliminares da execução de março mostram um sucesso parcial no controle da despesa. Mas, enquanto Dilma espreme os gastos em saúde e educação, vê sua conta de juros explodir para R$ 230 bilhões neste ano. É como enxugar gelo. O nível de juro requerido para conter o consumidor seria muito superior ao que dita o bom-senso. Precisaríamos de uma taxa básica de 14% ou 15%, algo politicamente fora de questão. Abaixo desse patamar, o juro pouco contribuirá ao resfriamento espontâneo do consumo, embora infle a despesa financeira do governo. A solução passa, portanto, longe da política de juros altos.

Além disso, um aumento no juro cria efeitos nocivos colaterais sobre o já estrambótico custo de produção doméstico. Joga a indústria nacional da terceira para a quarta divisão no campeonato da competitividade mundial. Os empresários industriais não sairão do atoleiro. Precisariam, neste momento, de uma corajosa e eficaz simplificação fiscal sobre toda a estrutura produtiva do país. O governo até estuda isso com carinho, mas com uma enervante falta de pressa.

Desta vez, a solução passa longe dos juros altos. Precisamos de disciplina fiscal e poupança interna.

O outro defeito de combater a inflação com juro alto é a incompatibilidade com nosso regime cambial, definido como flexível, portanto respondendo aos estímulos naturais do mercado. Ora, a principal força de mercado é a diferença entre juro interno e juro externo, uma enorme bomba de sucção de divisas, que provoca uma entrada monumental de capital, pelo estímulo indevido de um juro elevado demais aqui dentro, ante o juro baixo lá fora. Esse perigoso ingrediente da atual conjuntura de bonança da economia brasileira pode se converter, a qualquer momento, se mudar o clima externo, numa nova bomba-relógio inflacionária, que explodirá se o gigantesco fluxo de entrada de dólares, hoje sócio da estabilidade de preços, quiser retornar à pátria dos aplicadores, passando por uma porta cambial estreita.

O recado da economia brasileira para a nova presidente é simples: em matéria de combate à inflação, não dá para repetir o caminho do governo Lula. O estoque de milagres pelos altos preços das matérias-primas acabou, deixando para a equipe atual apenas o rescaldo daquela imensa sorte histórica. O rumo das expectativas sobre a inflação dependerá da coragem de mudar o atual modelo de expansão do consumo baseado no crédito e no déficit público. Como líder, Dilma deve começar a falar de capitalização da economia brasileira no longo prazo, o que exige muito mais poupança pública (o oposto do déficit atual) e mais poupança privada (previdência complementar e mais investimento de lucros empresariais).

O dragão, como em qualquer lenda, nos traz um enigma e um desafio. A espada dos juros é arma equivocada na luta contra esse monstro.

Fonte: revista “Época”

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