A presidente Dilma Rousseff está numa armadilha. Seis meses depois da posse ela continua enrolada em trapalhadas e escândalos criados por ministros comprometidos muito menos com ela do que com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Só a força desse esquema explica a sobrevivência do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, depois da demissão de quatro de seus mais importantes auxiliares. Diante do escândalo e da reação da presidente, o ministro convocou uma reunião partidária. Foi uma óbvia demonstração de força para intimidá-la. O recado é claro: se houver demissão, o governo se arriscará a perder os votos do PR, componente da base parlamentar montada por Lula. Se ficar acomodada, a presidente confirmará uma das piores profecias do ano passado: seu papel principal será ocupar a cadeira até a volta do Grande Líder. Se quiser governar de fato, precisará libertar-se e para isso terá de fazer muito mais que demitir o ministro Alfredo Nascimento.

A presidente Dilma Rousseff gastou boa parte do primeiro semestre – um oitavo de seu mandato – enfrentando problemas criados por ministros e tentando fazer funcionar uma administração emperrada. Uma das heranças mais complicadas e mais custosas do governo anterior é o compromisso de hospedar no Brasil a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Todas as obras estão muito atrasadas, porque nada se fez em quatro anos para cumprir as promessas. As obras dos estádios vão mal, mas o ministro do Esporte, Orlando Silva, continua no cargo, embora sua capacidade administrativa tenha sido testada amplamente, com péssimo resultado, já no governo Lula. Seu desempenho atual é apenas a continuação do observado nos anos anteriores, talvez com alguma piora. O Tribunal de Contas da União recentemente o acusou de tentar ocultar informações sobre as despesas da Copa. Terá a presidente notado essa acusação?

O ministro dos Transportes é um velho conhecido da presidente. Quando ministra da Casa Civil, no governo anterior, ela já o havia cobrado pela demora na realização de projetos. Chegou a expô-lo a uma situação constrangedora numa acareação diante do presidente Lula. Nenhuma surpresa, portanto, exceto, talvez, por um detalhe: uma farra das proporções apontadas pela Veja pode ter ido além de suas expectativas.

Com a criação da Secretaria da Aviação Civil, em março, a presidente pareceu disposta a mexer na herança de incompetência administrativa. A nova secretaria assumiu algumas funções antes subordinadas ao Ministério da Defesa e passou a controlar a Infraero. A mudança deveria servir para o governo apressar a construção e a reforma de aeroportos. Também essas obras estavam atrasadíssimas, embora o governo as tivesse previsto quando se comprometeu com a realização dos jogos.

Os atrasos continuam. As mudanças provavelmente foram insuficientes para tornar a administração do setor mais dinâmica. De janeiro a abril, segundo a organização Contas Abertas, a Infraero investiu apenas 6,5% dos R$ 2,2 bilhões orçados para 2011. Tudo isso ajuda a explicar a decisão do Palácio do Planalto de privatizar alguns dos principais aeroportos, mas, mesmo assim, o cumprimento dos prazos continua duvidoso.

Uma das heranças mais pesadas – e já muito comentada – foi deixada no Ministério da Educação, uma das principais fontes de encrencas para a administração da presidente Dilma Rousseff. Nenhum princípio gerencial explica a tolerância a esse foco de problemas.

A herança inclui também o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, e a orientação definida para a instituição no governo anterior. O administrador, nesse caso, pode ser bem preparado e eficiente, mas a estratégia continua sendo a de criar os tais “campeões nacionais”. O desastrado envolvimento do BNDES no projeto de fusão do Pão de Açúcar com o grupo francês Carrefour é mais um capítulo de uma longa série de desacertos quase cômicos. O governo ainda pode abandonar essa aventura imprudente e despropositada, evitando o risco de graves complicações legais. Mas o cidadão brasileiro terá motivos para se preocupar enquanto persistir a política do governo anterior. O custo dessa política para o Tesouro é apenas uma parte do problema. Seus aspectos mais graves são outros, a começar pelo caráter autoritário e arbitrário dessa forma de intervenção. Planejamento econômico é outra coisa e passa longe da concessão de benesses a alguns eleitos.

Será difícil escapar da armadilha. A coalizão de governo é essencialmente uma aliança para a divisão das vantagens acessíveis, por bem ou por mal, a quem exerce o poder. A presidente Dilma Rousseff terá de ser corajosa e hábil para quebrar as amarras sem sofrer grandes danos. Será muito arriscado. Mas, se não o fizer, nunca assumirá de fato o governo.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 06/07/2011

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  1. Maria Luiza

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