A batalha dos juros

A presidente Dilma reclamou dos juros bancários em seu discurso de 1, de maio, Dia do Trabalho. Transmitido em rede nacional de rádio e televisão, uma de suas frases teve particularmente enorme repercussão também na mídia impressa. Foi selecionada pelo jornal “O Globo” deste domingo em suas Frases da Semana. É o assunto da seção Opinião na revista “Época”.

Tornou-se também o tema da Carta ao Leitor da revista “Veja” desta semana. “É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos do mundo, continue com um dos juros mais altos do mundo”, disparou a presidente. Para a opinião pública, é admissível que, com os juros mais altos do mundo por mais de duas décadas, o Brasil tenha um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos do mundo.

As linhas de defesa dos bancos são tecnicamente procedentes. Impostos sobre transações financeiras e provisões para inadimplência aumentam os custos dos empréstimos. Crédito subsidiado dirigido a empresas e setores escolhidos, além dos depósitos compulsórios junto ao Banco Central, reduz a oferta de crédito e aumenta os juros no mercado livre.

Para a opinião pública, é admissível que, com os juros mais altos do mundo por mais de duas décadas, o Brasil tenha um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos do mundo

Não se iludem, entretanto, os macroeconomistas de boa estirpe quanto aos fundamentos necessários para a existência de taxas de juros baixas que promovam o crescimento econômico sustentável com estabilidade de preços. A primeira condição é a despolitização da moeda, a manutenção de um regime monetário de alta credibilidade, de modo a garantir o cumprimento de metas de inflação baixas e relativamente estáveis. Essa condição garante que as expectativas inflacionárias embutidas nas taxas nominais de juros permaneçam também baixas e estáveis.

A segunda condição tem a ver com os hábitos de poupança da população, as oportunidades de investimento e a trajetória do déficit público, que por sua vez depende da consistência do regime fiscal. Foi exatamente a falta de consistência na dimensão fiscal que empurrou para cima os juros reais durante o período extraordinariamente longo de nossos esforços de estabilização. A credibilidade do Banco Central, de um lado, ancorando as expectativas de inflação, e a solidez do regime fiscal, de outro, derrubando os juros reais de equilíbrio, são a verdadeira garantia de juros baixos, estabilidade de preços e crescimento sustentável.

Fonte: O Globo, 07/05/2012

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