A bolha dos mitos sobre a educação

A maior bolha da economia brasileira continua sendo a dos mitos sobre educação. Na semana passada o economista americano Paul Krugman, falando em São Paulo, atiçou discussões ao contestar a imagem do Brasil como nova potência global. Não desinflou essa imagem, mas criou uma boa marola e ganhou resposta do ministro da Fazenda. Os brasileiros preocupados com o médio e o longo prazos deveriam gastar menos tempo com esse tipo de conversa e dar maior atenção a comentários como os do escritor Nicholas Carr, especialista em tecnologia da informação, publicados por Ethevaldo Siqueira em sua coluna dominical no Estado. Foi provavelmente a entrevista mais interessante nos jornais dos últimos dias.

Como Krugman, Carr esteve em São Paulo na semana passada, mas sua visita só foi notada por quem se ocupa da tecnologia da informação. Ethevaldo Siqueira o entrevistou e abriu a coluna com a declaração mais quente. Vale a pena repeti-la: “Não há nenhuma prova de que o uso de computadores na escola primária melhore a qualidade da educação, assim como não há nenhum fundamento na ideia tantas vezes divulgada de que o projeto denominado Um Laptop por Criança possa fazer uma revolução no ensino. É puro modismo.”

Mas esse modismo é perigoso. O brasileiro poderia ser muito mais educado e muito mais qualificado para o trabalho se o governo, em todos os níveis, tivesse sido capaz, nos últimos 20 ou 30 anos, de oferecer boas escolas de lousa e giz, equipadas com o mínimo indispensável para o bê-á-bá científico. A falta de computadores pode acabar servindo de justificativa para a baixa qualidade do ensino. Mas a superioridade das melhores escolas não se deve à eletrônica.

Boas escolas teriam professores bem treinados e com remuneração razoável. Nenhum aluno poderia completar o quarto ano fundamental sem saber ler e escrever, sem dominar um mínimo de aritmética e sem absorver, a respeito de seu mundo, informações essenciais para não ser etimologicamente um idiota. Escolas primárias ofereciam muito mais que esse mínimo, há uns 40 anos, e as mais eficientes eram quase sempre estaduais ou municipais.

A demolição do ensino público demorou umas duas décadas. Quando se voltou a dar alguma importância à escola pública, o primeiro objetivo foi universalizar o acesso à educação. Foi uma decisão correta, mas acompanhada de algumas ideias desastrosas. Os velhos padrões foram condenados como elitistas. Mas por que elitistas, se atendiam a crianças de todas as faixas e favoreciam intensa mobilidade social?

Era limitado o tamanho da rede escolar. Além disso, não havia bons professores em número suficiente para um público muito maior. Era preciso investir para aumentar a oferta de escolas e de pessoal. Mas também era preciso reconhecer a prioridade e aplicar o dinheiro necessário, economizando noutros itens. Governar é isso. Não era necessário descartar padrões mais decentes, como se fossem adequados apenas a uma elite, nem promover o rebaixamento da educação.

Aceitou-se implicitamente uma perversão: educação de pobre tem de ser uma porcaria. Deveria ser o contrário, com a escola compensando as deficiências do ambiente familiar e social. O preço da universalização talvez fosse alguma perda de qualidade. Mas a perda foi desproporcional. Prevaleceram dois mitos: o do caráter elitista dos velhos padrões e o da irrelevância da qualidade quando se trata de ensino para o povão.

O resultado foi um enorme desperdício. A edição de 2009 da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE ainda mostra, em 2008, uma taxa de 21% de analfabetos funcionais entre as pessoas de 15 anos ou mais de idade. Mostra também a permanência de amplo descompasso entre idade e série de matrícula. Tudo isso afeta a competitividade muito mais do que o desajuste cambial.

Outro mito resistente é o da exclusão racial. Isso tem servido para justificar a política de cotas. Mas não se pode falar de racismo no sistema de seleção. Quem corrige as provas dos vestibulares não conhece a cor dos candidatos. Negros com formação suficiente são aprovados. Os outros, não, mas essa restrição vale para todos os vestibulandos menos preparados para o exame. Em geral são pobres, mas as cotas para pobres ou para alunos do ensino público também não são a resposta. Ajustam-se aos mitos da discriminação e atendem a uma concepção populista de justiça, mas não resolvem o problema real – o vergonhoso nível da educação básica.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 10 de dezembro de 2009.

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