Uma série de lançamentos de ações de companhias educacionais está programada para os próximos meses nas bolsas brasileiras. Uma visão superficial é a de que se trata apenas de um caso particular, um setor como os demais atingidos pela abrangente onda de abertura de capital disparada pelas altas espetaculares dos mercados acionários globais: a invasão dos financistas, o chamado das bolsas, o choque de capitalismo no setor educacional.

Mas a transformação do setor educacional terá significado e alcance bem mais profundos. Peter Drucker, em seu clássico Gestão em Tempos de Grandes Mudanças (1995), já anunciava o fenômeno emergente da “sociedade do conhecimento”. Uma das principais características dessa nova época é “o acesso ao trabalho, ao emprego e à posição social por meio da educação formal”. Segundo Drucker, “o alicerce da sociedade do conhecimento será a educação; e as escolas, suas mais importantes instituições”.

Até mesmo as principais preocupações políticas dessa nova sociedade terão como eixo questões educacionais: “A aquisição de conhecimento e a distribuição de oportunidades educacionais serão uma questão política tão central na sociedade do conhecimento quanto foram a aquisição de propriedades e a distribuição de renda nos três séculos que chamamos a era do capitalismo”.

Outra questão central, indica Drucker, será a do conteúdo educacional: “Que tipo de conhecimento será requerido de todos? Em que doses? E a qualidade do ensino? Os valores básicos ensinados nas escolas serão crescentemente uma preocupação da sociedade como um todo, e não apenas uma matéria deixada a cargo do professor”.

Há também no trabalho de Drucker uma advertência quanto à transição de uma sociedade aristocrática para uma sociedade do conhecimento: “O conhecimento é fundamentalmente diferente do que antes era considerado o saber. Uma pessoa educada era alguém que tinha educação formal de caráter geral, Allgemein’ bildung na tradição germânica ou liberal education na tradição anglo-americana. O antigo saber tinha pouco a ver com as necessidades do mercado de trabalho. O foco era o desenvolvimento pessoal, e não suas aplicações práticas. Havia mesmo uma ponta de orgulho no saber inútil. Já a força de trabalho da sociedade do conhecimento consistirá de pessoas altamente especializadas, e também capazes de continuar aprendendo por toda a sua vida útil”.

A maior especialização exige que os trabalhos sejam conduzidos em equipe. De empresa de serviços financeiros a equipe de neurocirurgia, a complementaridade de recursos humanos exige um capital institucional, uma “organização para transformar o conhecimento especializado de uma equipe em performance eficaz na execução do serviço”.

Afirma Peter Drucker: “Para obtermos o desejado grau de coesão social típico das modernas democracias liberais e suas economias de mercado, os políticos, os economistas, os educadores, os homens de negócios e os pais como cidadãos terão de examinar o conteúdo educacional de nossas escolas, seus valores e seus propósitos. A qualidade do conhecimento oferecido e a produtividade de sua aplicação. E as políticas públicas de qualquer país terão de priorizar sua competitividade na economia global, em que o capital humano se tornou o principal recurso para a criação de riqueza”. Como se vê, ao contrário do que possam pensar alguns empresários da educação, banqueiros e financistas, o lançamento de ações está longe de ser o cruzamento da linha de chegada. É apenas o ponto de partida.

(Época – Edição  475 – 25 de junho de 2007)

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