Como se não bastassem todas as mazelas que a economia americana enfrenta – déficit fiscal crescente, dívida federal acima de US$ 10 trilhões, recessão, etc. – há uma verdadeira bomba-relógio armada, que começa a pressionar cada vez mais as finanças públicas. Trata-se do aparato de welfare state criado no passado, basicamente os gastos com a Previdência Social, o Medicare e o Medicaid. Durante a crise atual, essa questão acabou em segundo plano. Mas isso não quer dizer que sua importância seja secundária. Ao contrário, isso apenas joga mais lenha na fogueira, conforme mostra um relatório do 13D Research.

Os gastos com os três grandes programas sociais já representam 40% do orçamento de US$ 3 trilhões do governo federal. Com a aposentadoria iminente dos quase 80 milhões de “baby boomers”, esses programas podem praticamente dobrar em relação ao PIB até 2030. A demografia começa a trabalhar contra as benesses do welfare state americano. Em 1935, quando a Previdência Social foi criada, apenas 6% dos americanos tinham 65 anos ou mais. Atualmente, esse percentual dobrou, e até 2030 deverá ter triplicado. Adding insult to injury, o povo não só está mais velho, como vive bem mais hoje em dia. A expectativa de vida vem aumentando rapidamente, o que é uma grande conquista do capitalismo, mas que custa caro aos programas sociais.

Em 1945, para cada beneficiário da Previdência Social, existiam mais de 40 trabalhadores pagando a conta. Em 2002, eram apenas pouco mais de três trabalhadores para cada aposentado. Em 2030, pelas tendências atuais, serão pouco mais de dois trabalhadores para cada beneficiário. Como o sistema de Previdência Social não passa de um grande esquema Ponzi de pirâmide, onde os novos adeptos bancam os aposentados, a demografia é crucial para manter o programa funcionando. A conta está ficando cada vez mais pesada para os ombros dos trabalhadores.

O Congressional Budget Office (CBO) espera que o gasto com os benefícios da Previdência Social ultrapasse os impostos sobre salários já em 2009. Desde 1984, será a primeira vez que isso acontece. Na última vez que isso aconteceu, em 1983, o Congresso aprovou uma série de reformas, incluindo o aumento nos impostos sobre os salários e na idade de aposentadoria. Graças a estas medidas, foi possível ganhar tempo e operar com superávit durante esses anos. Mas a hora de novos ajustes dolorosos voltou. Medidas cada vez mais drásticas serão necessárias para fechar a conta. O CBO esperava um superávit de US$ 80 bilhões para este ano, e as novas estimativas apontam apenas US$ 16 bilhões de saldo positivo, contando com o imposto de renda. Para o ano que vem, a expectativa é de apenas US$ 3 bilhões. O governo ainda aumentou os benefícios em quase 6% para compensar o aumento no custo de vida. Foi o maior aumento desde 1982.

Em 1968, o presidente Johnson incluiu a Previdência Social e outros gastos num orçamento unificado. Com isso, os ativos da Previdência deixaram de ser separados dos demais gastos do governo. A arrecadação previdenciária, então bastante superavitária, passou a representar uma montanha de dinheiro que o governo poderia utilizar para financiar outros gastos. De fato, desde 1986, os saldos positivos da Previdência Social subsidiaram o resto dos gastos do governo em mais de US$ 2,3 trilhões. Assim, o déficit fiscal do governo podia ser reportado abaixo do real, pois o buraco era tampado pelo saldo previdenciário. Muito em breve, isso vai mudar. Em vez de a Previdência Social subsidiar o restante do orçamento, o restante do orçamento terá que cobrir o rombo da Previdência.

No epicentro do problema, sempre esteve a própria natureza do programa. Os políticos não gostam de adotar medidas impopulares, pois dependem dos votos para continuar no poder. E como o rombo previdenciário sempre foi algo distante, cada governo ia jogando a conta para o próximo. Apenas quando a situação parece realmente insustentável alguma medida mais dura é tomada. Estamos num desses momentos. E justamente no meio de uma crise onde os gastos do governo americano já parecem explosivos. Até quando será possível o governo americano conseguir financiamento para tantos gastos sem puxar a taxa de juros para cima, afetando negativamente a economia? Se a opção for pela saída mais fácil – imprimir dinheiro através do Fed – qual será o destino do dólar? São tempos difíceis, sem dúvida. E há ainda uma bomba-relógio criada pelo welfare state, fazendo tic tac tic tac…

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