A julgar pelo resultado do segundo trimestre deste ano, divulgado ontem pelo Grupo Pão de Açúcar, ficará muito difícil para o controlador do francês Casino, Jean-Charles Naouri, continuar cantando vitória na disputa com o brasileiro Abilio Diniz pelo controle da empresa.

O acordo, como se sabe, prevê que, a partir de 2012, Naouri será dono de 50% mais uma das ações do grupo de controle, o que fará dele o proprietário da companhia. Só que o mesmíssimo documento que lhe assegura tal direito (e é isso que a maioria dos observadores tem ignorado até aqui) garante a Abilio a presidência do conselho de administração.

E mais: nessa condição, pelo acordo peculiar fechado no tempo em que as duas partes hoje litigantes viviam uma lua de mel corporativa, Abilio manterá, mesmo sem a maioria das ações, o direito de escolher e nomear o presidente executivo da companhia. E, junto com ele, os diretores responsáveis pelo dia a dia do negócio.

Assim, Naouri se verá na posição dos monarcas que reinam mas não governam. Estará mais para o inglês João Sem Terra do que para seu conterrâneo Luís XIV, se é que vale uma metáfora histórica.

Quanto a Abilio, as condições para sua saída do comando efetivo são duas: a empresa precisa apresentar resultados negativos e ele precisa ter saúde para tocar o negócio.

Os números divulgados ontem são claros: a empresa lucrou R$ 91 milhões no segundo trimestre do ano, um resultado 64% superior ao do mesmo exercício em 2010. Ou seja: o Pão de Açúcar está bem de saúde. E nada indica que a situação seja diferente com o presidente de seu conselho, que, com 74 anos, mantém uma rotina de pelo menos três horas de atividade física por dia.

Quem, portanto, considerou Abilio derrotado na disputa com Naouri talvez não conheça todos os detalhes do acordo. No cenário como está, o Casino não teria nem mesmo acesso aos postos-chave, de onde pudesse promover algum tipo de boicote para, se fosse o caso, prejudicar o desempenho da companhia e tirar Abilio do comando.

E, ainda que tivesse tal condição, esse seria um movimento suicida que, no final das contas, acabaria por se voltar contra ele. A menos que o ataque se desse – o que não parece ser o caso – pelo mercado de capitais. Nesse caso, Naouri poderia considerar a queda nos preços das ações uma perda de desempenho e, com esse argumento, tentar tirar Abilio do comando. Isso, que fique bem claro, é apenas uma hipótese.

Ontem, os papéis da companhia tiveram uma queda de 1,48% mesmo com o anúncio do lucro. É um caso raro de queda diante de um resultado positivo. Os analistas, com certeza, debruçarão sobre o problema à procura de uma explicação razoável, mas o certo é que a disputa entre os dois lados está longe do fim.

É pouco provável que Naouri queira, a partir de 2012, ser dono de um negócio no qual não poderá encostar um dedo sem autorização de Abilio. Da mesma forma, é pouco provável que Abilio queira presidir a companhia tendo sempre que lidar com um conselho de administração onde metade dos integrantes lhe será francamente hostil. No final da história, vencerá quem tiver mais paciência e habilidade para se defender dos golpes que, com toda certeza, ainda serão trocados.

Fonte: Brasil Econômico, 26/07/2011

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