A busca equalizada pela felicidade

O que é uma boa vida, uma vida que vale a pena viver? Esse desafio que se impõe incondicionalmente sobre a razão de qualquer pessoa é o desafio que motiva o estudo da ética, e que a define como campo de investigação filosófica. Diferente de outras questões fundamentais eternamente repetidas, como a origem do universo ou a natureza do conhecimento, à instigação primeira da filosofia moral não se pode determinar de uma vez por todas uma resposta definitiva e satisfatória para toda a humanidade. Por mais que a vocação teórica possa tentar o filósofo a tentar estabelecer um sistema total, um modelo indesviável aplicado a todas as circunstâncias da vida humana, a sabedoria para as questões práticas da vida não é adquirida simplesmente pela observação a um conjunto de regras.

São as nossas ações, envoltas em circunstâncias inteligíveis ou não, que determinam a resposta que cada um de nós dá à questão da boa vida. Assim como não se aprende violão simplesmente lendo um livro, nem se aprende a nadar ouvindo uma palestra, o desafio ético não se resolve teoricamente. É uma descoberta prática, um processo voltado para um fim último. A questão da boa vida se responde com ações, com o nosso comportamento individual.

Também não se pode exigir a uniformidade do comportamento. O comportamento de diferentes pessoas diante das mesmas circunstâncias não deve ser igual. A busca da felicidade do artista, do cientista e do soldado é necessariamente diversa. Exigir um comportamento uniforme de diferentes pessoas é privá-las desse processo de resposta ao desafio do que é a boa vida.

Há quem queira simplesmente abolir a questão da boa vida. Certas pessoas acreditam não apenas ter descoberto a resposta definitiva a essa questão fundamental, mas acreditam ter descoberto a resposta para todos os milhões de membros da sociedade. Falo dos políticos e burocratas que se acham no direito de decidirem nossa vida por nós.

Toda escolha que fazemos tem um custo. Esses custos são subjetivos. Uma atividade cujo risco não vale a pena para um desenhista pode valer a pena para um explorador. Da mesma forma a educação que vale a pena para o desenhista pode não valer a pena para o explorador. A virtude de nossas escolhas varia não apenas de circunstância para circunstância, mas também de pessoa para pessoa. No entanto, a premissa por trás do estado assistencialista moderno é que todos os membros de uma sociedade devem se expor aos mesmos riscos e se submeter a mesma educação. Independente das nossas particularidades irredutíveis, todos nós devemos sentar na mesma sala de aula pelo mesmo período de tempo aprendendo as mesmas coisas e, idealmente, ter a mesma alimentação, trabalhar o mesmo número de horas, assistir os mesmos filmes, prestigiar os mesmos artistas. Enfim, os novos burocratas agem como se já soubessem o comportamento ideal para todas as pessoas. O único problema é executá-lo com eficiência.

Porque somos diferentes, somos parciais na nossa busca pela felicidade. A ordem social que permite a pluralidade dessas buscas deve ser sustentada numa estrutura de direitos individuais, para alinhar responsabilidades e interesses pessoais, permitir a cooperação social e limitar os conflitos à competição pacífica. Em contraste, enfraquecendo a voluntariedade, a politização da questão da boa vida perde o seu sentido, e cada um de nós permanece separado de sua responsabilidade na busca da boa vida. A coerção estatal, ao substituir nossas escolhas, descaracteriza a moralidade do conjunto de hábitos que nos aproximam ou nos afastam da felicidade.

O socialismo sempre foi caracterizado pela busca da igualdade econômica, e seus resultados foram desastrosos. Hoje há uma crescente ambição política na busca da igualdade ética. Os governos tratam cada um de nós como seres iguais, comensuráveis, para os quais a questão da boa vida já vem respondida. O que você pode ou não consumir, com quem você deve se relacionar, que riscos você deve tomar, em que você deve acreditar. Para todas essas questões, o estado oferece um modelo cada vez mais igualitário e, consequentemente, menos equitativo, menos justo, menos moral. Temos que tomar nossa vida de volta do estado. Entender que as decisões sobre nossa vida cabem a nós. Que a vida que vale a pena viver é uma questão moral, e não uma matéria política.

(Publicado em “OrdemLivre.org”)

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