Eu sou um freqüentador de corredores. Entre os intelectuais mais bundões, virei “figura pública” e, como sempre estive do lado da competição, da igualdade, denunciei implacavelmente a hierarquia brasileira, jamais tive turma ou partido ou fui “chique radical”, ganhei o estigma de “politicamente incorreto” que hoje, em face da desonestidade dessa esquerda que governa, é um digno elogio.

Tampouco escrevo a tal crônica “autêntica” (até hoje acreditamos piamente na salvação da pátria e na autenticidade literária), relato que os entendidos de plantão dizem ser pessoalíssimo mas que, pensando bem, teria que ser um traço óbvio da crônica nacional, porque vivemos experimentando exceções, somos todos uns filhinhos de mamãe, adoramos as revelações de alcova e a duplicidade dos compadrios. Gostamos de mostrar o sexo dos anjos e nos deleitamos com os últimos segundos antes da morte trágica. O nosso voyeurismo é despudorado e sem regras. Aliás, e por falar nisso, fazemos normas só para, na primeira oportunidade, romper com elas. Dir-se-ia que somos legisladores experimentais, porque estamos sempre testando as leis que promulgamos sob grande tensão ou comoção espiritual e política, para jamais segui-las. Um marciano diria que somos um imenso laboratório legal, no qual os ratos e os juízes somos nós mesmos.

No fundo, o que sou mesmo é um velho antropólogo que aprendeu a distinguir o universal no singular e este no global. No meio do conservadores, sou radical e vice-versa ao contrário. Remando contra a corrente e tendo a vantagem de estar na liminaridade dos corredores, escuto a casa pelos corredores. De lá, ouço coisas assim:

* Se o Supremo Tribunal Federal não indiciar os participantes do mensalão, seria melhor fechar, soterrado pela doutrina e pelos milhares de processos que chegam às suas barras e não podem sequer ser apreciados por falta de tudo. Ninguém, como membro de uma profissão, pode fazer o que é pago para fazer quando as tarefas a realizar ultrapassam os meios de concluí-las. Como estamos fartos de saber na universidade, é complicado carregar e, ao mesmo tempo, tocar o piano. Imagine o leitor ser simultaneamente presidente da Bolívia e da Argentina. Se o Lula, que “toma conta”, como revelou no seu último discurso-comício-preleção-parábola, na semana que passou, de dois países – o dos ricos (que ele despreza, mas ajuda) e o dos pobres (por quem fez uma “opção preferencial” e são “os que mais precisam do Estado brasileiro”) – está para enlouquecer de raiva, imagine os doutos e zelosos juízes do Supremo…

* É estarrecedor tomar conhecimento de que a diretora demissionária da Anac tenha mentido a uma desembargadora sobre assuntos técnicos. Seria a síndrome da dupla personalidade, cujo símbolo é o Zé Dirceu? Essa doença que faz com que um lado não reconheça o outro, exatamente como no livro de Robert Louis Stevenson? Só que, no livro, o explícito e o implícito são separados e personificados, enquanto que, neste governo, a divisão entre governar dentro do liberalismo e fora dele parece persistir. Seria essa polaridade entre seguir a ordem burguesa ou subvertê-la a chave para se entender o governo Lula? Polaridade que também se expressa entre os ricos que querem educação mas ainda não descobriram a filantropia? Ou será que você já viu algum milionário brasileiro dar um cheque para alguma universidade? No nosso caso, eles são os seus donos…

* Quando eu sou obrigado a rememorar esse nojento teatro de traição da boa-fé política, chamado brasileiramente de “mensalão” – o seu nome deveria ser outra coisa -, o que mais me destrói emocionalmente não é saber que estamos vendo mais uma vez um teatro de um teatro, uma antemissa de um processo. Uma preliminar que é, de fato, uma licença para uma pré-licença para eventualmente processar; uma peça que jamais vai terminar porque o seu final correto jamais será o castigo para os poderosos (o núcleo duro do PT e o seu “capitão do time”, como ele era orgulhosamente chamado pelo presidente da República). Não! O que mais me dói é ser obrigado a lembrar que ele ocorreu no governo que mais prometeu honestidade e coerência; um governo que dizia com todas as letras que não podia errar; que ia acabar com a corrupção a partir da posse. É ver como isso aconteceu no âmbito de um partido ideológico que se dizia o mais honesto e o menos coronelista de todos. Governo de perseguidos políticos que, no poder, nega asilo aos pugilistas cubanos. Quem não se lembra do ex-presidente de um José Genoino, clamando: “O PT não rouba e não deixa roubar!”? O que me aniquila é viver nesses Brasis. Não apenas o dos ricos e pobres do Lula, mas o dos que governam pelo princípio de dois pesos e duas medidas.

(O Globo, 29/08/2007)

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