Paulo Guedes

A percepção é a mesma nos dois lados do Atlântico. Os países avançados se excederam, e agora o conserto vai levar alguns anos.

Os países emergentes são as novas fronteiras de crescimento da economia mundial. Assim, permanece enorme o interesse pelo Brasil, como pude constatar em rápido giro pelo exterior neste início de 2012.

Uma pergunta que me fora feita com insistência em Londres, Zurique e Genebra foi também a mais frequente em Nova York, Boston, Chicago, São Francisco e Los Angeles: “A desaceleração econômica da China pode derrubar a dinâmica do crescimento brasileiro?” Ou seja, em que medida a economia brasileira tem uma dinâmica própria de crescimento, com base em seu mercado interno de consumo de massas? Ou teria sido apenas “rebocada” pelas exportações de produtos primários e pelas altas de preços agrícolas na esteira do avanço chinês? É simples descartar os piores receios quanto aos efeitos desfavoráveis da desaceleração econômica chinesa. Foi a entrada dos eurasianos nos mercados globais que empurrou para cima os preços relativos da energia e da comida. A taxa de crescimento dos chineses afeta apenas o ritmo dessa entrada, calibrando sua migração interna de uma economia de subsistência rumo aos grandes centros urbanos. Mesmo que se abrande o ritmo de aumento das compras, a demanda por comida continuará em alta.

Por uma aplicação da Lei de Walras, as condições de equilíbrio geral nesta economia globalizada indicam preços de energia e de alimentação subindo em relação aos salários por muitos anos.

Ademais, as políticas de reflação dos bancos centrais avançados indicam também que devem continuar em alta os níveis absolutos dos preços da comida e dos produtos primários, e não apenas seus preços em relação aos salários. A atuação particularmente pirotécnica do Federal Reserve, o banco central americano, ao desvalorizar continuamente sua moeda, contribui para a aceleração da alta de preços expressos em dólar.

Ainda que caíssem esses preços com a desaceleração chinesa, subiria nosso câmbio flexível, aumentando as exportações e reduzindo as importações de móveis, calçados, têxteis, automóveis, agroindústria — e freando a desindustrialização em curso.

Foi mais fácil desmontar a sinodependência do que falar das reformas de modernização, que, assegurando aumentos de produtividade, sustentariam a dinâmica de crescimento baseada no mercado interno.

Fonte: O Globo, 12/03/2012

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