eugenio bucci

Em plena temporada de caça ao voto, os candidatos baju­lam a audiência e proclamam que quem manda é o elei­tor. Repetem que a cidade será aquilo que os eleitores querem que ela seja. O votante se sente rei: decidirá o futuro das esco­las, a qualidade do transporte público, a eficiência dos postos de saúde, os rumos da democracia nacional, o método de preservação da natureza e, claro, o destino da calota polar que está derretendo em alta velocidade lá no norte do planeta.

Demagogia à parte, calota polar à parte, há um quê de ver­dade na tagarelice eleitoreira. Sim, a sorte da cidade depende, ao menos em parte, das urnas. A cara da cidade é (também) conseqüência do voto de cada um de nós. Mas, vamos com calma, isso é apenas a primeira parte da equação. A segunda parte, muito menos óbvia e muito mais perturbadora, afirma justamente o oposto: o seu (e o meu) modo de sentir a vida, de olhar nos olhos dos vizinhos (ou de não olhar nos olhos de ninguém), tudo isso é conseqüência da cidade. Portanto, estamos aqui numa daquelas situações fascinantes em que duas afirmações opostas são igualmente verdadeiras. Primeira: os cidadãos defi­nem pelo voto como a cidade vai ficar. Segunda: a cidade ajuda a formatar o comportamento dos cidadãos que ela tem.

Quem nasce e cresce num vilarejo ru­ral acaba assumindo padrões mentais que vêm do mundo agrário e da presença iminente de um cavalo pastando na praça da matriz. Quem vive na metrópole, em São Paulo, terá inscritos em seu cérebro a neurose do trânsito, o medo de assalto, a pressão alta e a falta de ar. A cidade dita a per­sonalidade de seus habitantes mais ou menos como a língua materna nos ensina a pensar. Somos “filhos” das cidades em que moramos. As cidades criam os humanos (embora sejam criadas por eles).

A cara da cidade é (também) conseqüência do voto de cada um de nós

Uma cidade toda quadriculada, dividida em quarteirões idênticos, estimula um raciocínio espacial também quadrangular. Um centro urbano sem simetrias, de linhas tortas e paradoxais, induz a modelos mentais menos regulares. Tomemos o caso de Orlândia, no interior paulista. Não se trata de uma comarca de renome, como São Joaquim da Barra, evidentemente, mas tem lá suas particularidades interessan­tes. Em Orlândia, como em Nova York, as avenidas correm no sentido norte-sul, e as ruas no sentido leste-oeste. Como em Nova York, elas não têm nome de gente, mas apenas números: Avenida 2, Rua 4, e assim por diante. E melhor: em Orlândia, todas as vias públicas são de mão dupla.

Conseqüência: uma criança que habita esse traçado tende­rá a pensar que todas as esquinas do mundo são um cruza­mento de linhas perfeitamente perpendiculares, assim como tenderá a acreditar que, sempre, por onde se vai, se volta. Nada mais lógico. Se a pobre criança orlandina despenca em São Paulo, terá de desprogramar completamente seu senso de orientação. Primeiro porque, na capital paulista, o mapa não é euclidiano. É selvagem. Algumas das grandes avenidas sinuosas que estão aí até hoje seguem caminhos que já eram usados pelos índios que moravam na região desde antes, bem antes, de 1500.0 longo eixo da Consolação que continua na Rebouças era uma rota que ligava o Vale do Anhangabaú às aldeias do Butantã. Para complicar ainda mais nossa vida, na imensa metrópole paulistana, a trilha que serve para ir não serve para voltar. Você sobe pela Teodoro Sampaio, mas precisa descer pela Cardeal Arcoverde.

Convenhamos, essas configurações urbanísticas afetam (e muito) nosso jeito de pensar, não apenas sobre os percursos metropolitanos, mas também sobre os descaminhos da existência humana. Em São Paulo, nem sempre a porta de entra­da para um casamento serve de saída para o divórcio.

Isso tudo vai mais longe, muito mais longe. Cidades mu­radas inspiram medo. Cidades mais densas, cheias de prédios altos e pesados, intensificam a claustrofobia. Cidades escuras apavoram. Num filme argentino recente, Medianeras, de Gus­tavo Taretto, o narrador joga na cidade a culpa por todos os males do mundo. Ele diz que “as separações, a violência fami­liar, a bulimia, a depressão, os suicídios, os ataques de pânico, a obesidade, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são res­ponsabilidade dos arquitetos e empresários da construção” Calma, não entre em pânico. O narrador de Mediane­ras não está falando de nenhum município brasileiro. O problema dele é Buenos Aires. De toda forma, pense nisso quando estiver cara a cara com a urna no dia 7 de outubro. Seja carinhoso com os sentimentos que sua cidade plantou em seu coração e vote em alguém que sabe sonhar além das esquinas em ângulo reto.

Fonte: revista “Época”

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