“Se ainda existe alguém que duvida que os EUA são um lugar onde tudo é possível, que ainda conjectura se os sonhos de nossos fundadores continuam vivos, que ainda questiona o poder de nossa democracia, esta noite é a resposta.” No discurso da vitória, no Grant Park de Chicago, Barack Obama foi adiante e falou ao mundo: “E para todos aqueles que se perguntam se o farol dos EUA ainda brilha com a mesma intensidade, esta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força de nossa nação não emana da capacidade de nossas armas ou do tamanho de nossa riqueza, mas do poder persistente de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inflexível esperança.” O novo presidente retomou um fio histórico muito antigo, conectando-se à tradição do excepcionalismo americano.

Dez anos depois da viagem fundadora dos peregrinos do Mayflower, de 1620, John Winthrop liderou um grupo de puritanos que estabeleceu uma colônia na Nova Inglaterra. A bordo do navio Arbella, pouco antes do desembarque, ele pronunciou um sermão que se tornaria célebre pela passagem: “Nós devemos ser como uma cidade brilhante no alto da colina.” Os puritanos ingleses julgavam que sua pátria perecera moralmente por ter rompido o pacto com Deus e prometiam começar tudo de novo na América do Norte, oferecendo aos cristãos da Europa um exemplo de pureza. Não demorou para que a metáfora da cidade-farol fosse preenchida com significados ausentes do sermão original: democracia, liberdade, oportunidade.

Todas as nações são excepcionais, no sentido de que cada uma é o fruto de uma narrativa fundadora singular. Mas nenhuma outra proclama incessantemente essa condição. Três décadas depois da ancoragem do Arbella, com o coração devastado, começaram a chegar à “cidade brilhante” os radicais de Oliver Cromwell. Aqueles revolucionários cristãos e republicanos devotaram sua vida à idéia de acender o fogo da liberdade por toda a Europa, destruindo as opressoras monarquias católicas e cobrindo o mundo com a tenda da Commonwealth. Contudo os Atos de Navegação e a conciliação entre o Lorde Protetor e os poderes europeus encerraram a revolução. Os profetas remanescentes transferiram-se para o outro lado do oceano, onde juntaram os gravetos de uma nova fogueira. Cem anos mais tarde, utilizando a linguagem do Século das Luzes, os pais fundadores inscreveram a idéia da reforma do mundo na Declaração de Independência.

No seu discurso de despedida, Ronald Reagan mencionou a cidade encarapitada na colina e a jornada de Winthrop “à procura de um lar que seria livre”. Um a um, os presidentes dos EUA, democratas ou republicanos, retomaram a nota do excepcionalismo e reafirmaram o compromisso com a reforma do mundo. Os fundamentos filosóficos de política externa dos EUA estão mais apartados dos das potências européias que a Lua da Terra. Enquanto os europeus traduziram o interesse nacional nos termos da Realpolitik e se entregaram quase sempre ao cálculo geopolítico, os americanos enveloparam suas políticas, mesmo as mais estreitamente egoístas, em grandiosas proclamações de valores universais. É um atestado da audácia da ignorância ou de um primitivo antiamericanismo descartar no lixo destinado à retórica vazia tudo o que disseram os líderes americanos durante dois séculos.

George W. Bush usou seu segundo discurso inaugural, pronunciado no ponto mais baixo da aventura iraquiana, para enviar uma mensagem a “todos os que vivem sob tirania e desespero”. Disse ele: “Quando vocês se erguerem pela liberdade, nós nos ergueremos com vocês.” Era o tempo de Abu Ghraib e dos memorandos de legalização da tortura, denúncias incontornáveis da farsa contida na idéia da reconstrução democrática do mundo pela força militar da Nova Roma. Mas nem sempre o conceito de missão da política externa americana foi expresso como a predestinação de implantar um protetorado mundial.

Woodrow Wilson, inspirado pela idéia kantiana da “liga da paz”, fez da proposta da Liga das Nações a síntese de sua plataforma de uma paz “sem vencidos ou vencedores”, numa Conferência de Paris de 1919 contaminada pelo desejo de revanche. Em 1928, o secretário de Estado Frank Kellogg só aceitou firmar um pacto de segurança esboçado pelo francês Aristide Briand depois de convertê-lo num utópico tratado geral de proscrição da guerra. No fim da 2ª Guerra Mundial, Franklin Roosevelt, erguendo-se sobre os ombros de Wilson, redesenhou a liga fracassada como as Nações Unidas. A ex-primeira-dama Eleanor Roosevelt presidiu o comitê de redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o tratado de inauguração da era dos direitos humanos, que completa 60 anos em dezembro. Tais iniciativas não exprimem apenas virtudes e cada uma delas se inscreve também numa moldura de interesses geopolíticos, mas todas são testemunhos de um desejo de liderar a partir do “poder persistente de nossos ideais”.

Projeto para o Novo Século Americano é o nome de um instituto político neoconservador criado em 1997 por Bill Kristol e Robert Kagan, que fechou suas portas há dois anos, num eloqüente sinal simbólico da falência do governo Bush. No seu discurso de Chicago, Obama dirigiu-se a “todos os que me escutam esta noite, além de nossas praias”, para dizer que “nossas histórias são singulares, mas nosso destino é compartilhado – e uma nova aurora de liderança americana está à mão”. O novo presidente, como seus antecessores, imagina-se o representante da cidade que brilha no alto da colina. Num mundo marcado pela ascensão chinesa, pela restauração de uma ditadura na Grande Rússia e pela deturpação jihadista do Islã, essa pode ser uma boa notícia. Com a condição de que a Casa Branca de Obama, em direção oposta à de Bush, evidencie o “respeito decente pelas opiniões da humanidade” apregoado na Declaração de Independência.

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