“Desde seus primórdios, o capitalismo exibe crises financeiras periódicas, não raro com devastadoras conseqüências. O custo e a disponibilidade do crédito são a causa mais importante da assimetria entre as longas fases de expansão e as súbitas fases de contração desses ciclos. A contração do crédito é abrupta, em contraste com o extenso boom que a precedeu. A liquidação forçada dos ativos em estreita janela de tempo derruba vertiginosamente os preços dos papéis e imóveis que garantiam os empréstimos, disparando um perverso mecanismo de realimentação. Toda crise financeira de grandes proporções foi precedida de uma expansão de crédito em ritmo insustentável”, advertia o financista George Soros em “A crise do capitalismo global” (1998).

O papel das flutuações de crédito como causa de instabilidade no sistema financeiro tem no mercado de imóveis o exemplo clássico. “O valor dos empréstimos concedidos pelos bancos depende do valor dos imóveis dados em garantia, mas o valor desses imóveis, por sua vez, depende da oferta de crédito para a compra de imóveis. Em conseqüência, a indústria de construção exibe também amplas oscilações como um espelho das flutuações do crédito”, prossegue Soros.

A função crítica do crédito é o fator subjacente às três maiores crises financeiras do último século: a Depressão de 1929 nos Estados Unidos, o estouro das bolhas imobiliária e acionária em 1989 no Japão e o extraordinário “credit crunch” atual. A ênfase no crédito permitiu que os economistas austríacos Hayek e Von Mises antecipassem o crash de 1929. “Haverá um colapso em poucos meses”, escreveu Hayek em fevereiro daquele ano, no relatório do Instituto Austríaco de Pesquisa Econômica. E Von Mises declinou uma posição no board do Kredit Anstalt, então um dos maiores bancos europeus, porque “um grande crash está chegando, e não quero meu nome de forma alguma ligado ao evento”. Em dois anos, o banco quebrou.

Por outro lado, de olho nos preços e tranqüilos pela ausência de sintomas inflacionários, “para os economistas anglo-saxões mais famosos e respeitados nos anos 20, o crash que precedeu a Grande Depressão foi completamente inesperado. Poucos dias antes da Terça-Feira Negra, 29 de outubro de 1929, Irving Fisher, o mais conhecido economista americano e professor de Yale, declarou-se otimista com o mercado de ações. Seu filho e biógrafo relata haver perdido milhões de dólares no crash. E o próprio Keynes, que amealhou fortuna para si e para a universidade de Cambridge nas bolsas, foi tomado de surpresa, perdendo 1 milhão de libras em valores atuais”, conforme relata H.C. Douglas, em “Compreendendo recessões, booms e a depressão” (2001).

Não soaram alarmes inflacionários nos anos 20 (EUA) nem nos anos 80 (Japão). E na crise atual, se soaram, foram ignorados. Os economistas de hoje, como Fisher e Keynes, caíram na mesma armadilha, ignorando a importância do crédito na origem das crises.

(O Globo – 08/12/2008)

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