por Alfredo Marcolin Peringer

Não são poucas as críticas dirigidas em passado recente ao sistema financeiro pela crise mundial, críticas até procedentes, se o alvo fosse a parte governamental do sistema. O setor financeiro privado assumiu, de fato, riscos exagerados, por lidar com empresas do governo, próprios do Efeito Pangloss, em que os indivíduos são induzidos a trabalhar com a melhor das hipóteses na avaliação dos lucros e incertezas (Samuel Staley and Anthony Randazzo, Freddie Mac and Fannie Mae Were Never Privatized). Os economistas, tirante, talvez, keynesianos e socialistas, sabem que o setor financeiro privado é um mero coadjuvante das crises: não tem poder de criar dinheiro inflacionário. Esse poder pertence aos bancos centrais, parte governamental do sistema que, no mais das vezes, usa esse poder com deszelo, emitindo moeda de forma exagerada, em dissonância com o crescimento dos bens e serviços e gerador das recessões.


Não custa lembrar que foi à má atuação dessas entidades que levou o “Consenso de Washington”, encabeçado por John Willianson e diversos economistas, inclusive do FMI e BIRD, a recomendar, em 1989, o “afastamento do Estado do setor financeiro”. E a recomendação tem forte apoio teórico e empírico. Ludwig Von Mises mostra que sem a atuação dos bancos centrais, as crises não existiriam ou seriam fracas e efêmeras (The Theory of Money and Credit). Racionalmente, defende a substituição deles por emissões de moeda ancoradas e conversíveis no peso do ouro, com reservas ao nível de 100%. Milton Friedman também clama pelo fim dessas instituições, mas acha que seria suficiente um sistema de emissão de moeda automático e paulatino, entre 3% a 5% ao ano.

Não é por coincidência que as crises financeiras eram amenas e passageiras antes da criação do FED (banco central americano) em 1913. Na época, foram ignorados os ensinamentos de Jean-Baptiste Say, como o de que a moeda não tem vida própria: nasce com as etapas produtivas, formadas de baixo para cima, através das ações dos indivíduos. O dinheiro criado por atos burocráticos, de cima para baixo, em desconexo com a produção, é falso. Mesmo que vá para os setores em queda, não vai recuperá-los. Ainda que possa amenizar as necessidades de alguns, o aumento global do consumo, em detrimento das reais necessidades de poupança, será um obstáculo na busca do equilíbrio. Foi, aliás, o desconhecimento do que seja realmente moeda e das suas funções que deram o recorde ao Brasil de país com as mais altas taxas inflacionárias no mundo, pelo mais longo tempo. Esse desconhecimento também ocultou o vínculo existente entre a desordem monetária e as nossas mais de duas décadas de crescimento econômico amorfo, aquém do medíocre. Pulamos de uma carga tributária per capita de R$ 870,91 em 1994 para R$ 4.943,16 em 2007, quando o soerguimento exigia uma redução drástica dos gastos públicos, necessários para liberar poupança para a economia. Voltamos, agora, a usar remédios impróprios para a enfermidade, forçando mais liquidez no sistema. A moeda falsa, mais do que uma pajelança, vai mascarar a cura das feridas antigas e criar novas, debilitando ainda mais o doente.

(Publicado em Zero Hora – 21 de novembro de 2008 | N° 15796)

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