Por mais que pareça um clichê, não há como evitar a observação: é cedo para avaliações sobre uma coleção tão extraordinária de eventos como o da semana que passou. Foram estonteantes as idas e vindas dos mercados diante de eventos de difícil compreensão não apenas para o leitor como para os profissionais do ramo, muitos dos quais nunca haviam visto nada parecido.

Tudo parece muito novo nesta crise, a começar pelo fato de que não é uma crise bancária, ao menos por enquanto. Entender este aparente paradoxo já é um bom pedaço do caminho para se situar nessa confusão.

A despeito de a crise ter sua origem no crédito imobiliário dito “de segunda” (o já popular “subprime”), o que estamos vendo, após um ano de reconhecimento de perdas (de cerca de US$ 500 bilhões) e de recapitalizações (de cerca de US$ 350 bilhões) em bancos comerciais, é que as áreas conflagradas são outras, adjacentes.

As inovações financeiras que geraram problemas – criaturas conhecidas como “crédito estruturado” e “derivativos de crédito” – procriaram em um terreno que não é propriamente dominado por bancos comerciais, mas por um complexo de instituições financeiras não-bancárias, incluindo securitizadoras, fundos mútuos de tipo variado, seguradoras e, especialmente, as “megacorretoras”, as estrelas de Wall Street, erroneamente misturadas entre bancos, pois nem recebem depósitos, nem fazem crédito.

Pois bem, com mais de um ano de crise, nenhum grande banco comercial foi objeto de intervenção, e os maiores “eventos” se deram exatamente nessas instituições não-bancárias: securitizadoras (Fannie May e Freddie Mac), “mega-corretoras” (Bear Sterns, Merrill Lynch, Lehman Brothers) e uma seguradora (AIG).

Curiosamente, os bancos comerciais, que estiveram no centro do problema durante o ano que passou, terminam a semana como parte proeminente da solução. Eles já digeriram boa parte do lixo tóxico encontrado em seus balanços, e a sensação é a de que a regulação não falhou inteiramente aí, mas no planeta vizinho, o do sistema “não-bancário”. Foram as ações dos bancos que reagiram mais acentuadamente à notícia da criação de uma agência governamental com vistas à aquisição de créditos ou títulos com lastro em crédito hipotecário, à semelhança do que foi feito na última crise hipotecária, nos anos 1980.

Ao fim das contas, as crises bancárias, ou não-bancárias, acabam, ou não acabam, todas parecidas.

(Folha de SP – 20/09/2008)

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