A democracia sem ideias

Toda a discussão política no Brasil parece resumir-se a quando vai ser lançada a campanha deste e daquele candidato e que obras serão inauguradas até as eleições. Essa história já é bem conhecida, e ninguém espera algo de novo.

Há tempos, a democracia transformou-se numa panaceia universal capaz de curar todos os males. Do PC do B ao DEM, todos têm por grande objetivo defender, reforçar, aprofundar a democracia no país e procuram fazer isso no canteiro de obras ou na televisão. O que há de errado? Que no Brasil não se debatem ideias. A política passou a ser assunto exclusivo de engenheiros e publicitários. Ou seja, de comadres.

Não se trata de esperar que o debate político chegue às insondáveis profundezas de Habermas. Trata-se apenas de discutir aquilo que é necessário para o bom funcionamento da democracia, porque ela não funciona sem ideias.

O problema está em pressupor que a democracia seja em si mesma um valor acima de toda a discussão, quando é apenas um sistema de governo. Na melhor das hipóteses, reflete os interesses imediatos da população, ou mais comumente o do partido que calhou de ser eleito. E como bem sabia Churchill, sistema de governo, por si só, não torna ninguém feliz.

Com a opinião nada singela de que é preciso “dar ao povo o que o povo gosta”, elimina-se toda a questão valorativa. Não basta termos eleições para que se instalem a justiça, o respeito pela liberdade e a igualdade dos indivíduos.

As oposições esqueceram-se de que boas obras públicas não garantem boa democracia, e mais parecem um eco do que diz o governo. No curto prazo, a consequência é que o discurso de uns e outros passa a ser vazio, em torno de uma manipulável competência administrativa.

No longo, minam-se as bases do sistema democrático e instaura-se uma “ditadura da opinião única”. Afinal, se as únicas diferenças são técnicas, não estaremos lidando com “farinha do mesmo saco”?

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo

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