A desigualdade social é o maior problema do Brasil”. Ouvimos isso muitas vezes e não sem algum motivo. Em nosso país não faltam cenários em que a desigualdade, mesmo sendo apenas uma relação, é visível. Vemos contrastes gritantes, sim. Vemos gente que praticamente nada tem de riqueza material, e gente que praticamente nada tem… do que reclamar. E isso incomoda. A mim e sei que a muitos outros. Inquieta, entristece, e às vezes até irrita. Mas qual é exatamente a fonte do desconforto? Se for a desigualdade em si, então, parece inevitável deduzir que: · quanto maior a diferença, maior o problema; e · sendo a desigualdade ruim, a igualdade é boa. Por trás do índice de Gini, por exemplo, estão essas duas afirmativas. Ele varia de zero (todos os membros da sociedade têm a mesma renda) a um (uma pessoa tem toda a renda da sociedade). Os rankings nele baseados põem nos primeiros lugares os países com o número mais baixo, e isso significa exatamente dizer que quanto mais igual for a renda, melhor. Aprofundando uma discussão também presente no artigo Tolices e Anacronismos, de Patrícia Carlos de Andrade, imaginemos os seguintes contrastes de renda: a) Uma família de miseráveis do Vale do Jequitinhonha, de renda per capita de menos de cem reais por mês, sem acesso a serviços como saneamento básico, transporte etc., de um lado, e de outro uma família de classe média, num centro urbano, renda per capita de mil reais por mês. b) A mesma família de classe média acima de um lado, e de outro uma família milionária de renda per capita de, digamos, um milhão de reais por mês. Qual tipo de contraste é mais agressivo a quem o observa? Certamente o leitor concordará que é o do exemplo (a). No entanto, a diferença de renda entre as duas famílias é muito maior no exemplo (b). O que isso significa? Que o problema é maior em (a), apesar de o contraste ser maior em (b). Se a desigualdade fosse mesmo a causa da indignação, isso não seria possível. Não há como aumentar a causa sem aumentar o efeito. No cenário desagradável há, mesmo, uma desigualdade e isso nos leva a acreditar que ela é o problema. Mas se tiramos do cenário a coisa com a qual a relação é feita, ou seja, a classe média, o desconforto persiste – apesar de enxergarmos algo próximo da igualdade, porém na miséria. Isso mostra que o problema não é a desigualdade, e sim a pobreza em termos absolutos. Há algo que pode fazer com que nos incomodemos mais com a situação (b), ou seja, com a desigualdade em si. É a inveja; pois se a preocupação é verdadeiramente com o próximo, do mesmo jeito que a vida sofrida de uns causa sofrimento a quem tem compaixão, a prosperidade de outros devia ser fonte de alegria. Não são todos, afinal, seres humanos? É interessante como o salto em qualidade de vida da miséria para a classe média é incomparavelmente maior que o salto da classe média para a riqueza, apesar de a diferença de renda ser muito menor da miséria para a classe média. Aquilo que mais faz falta a quem é pobre de verdade é aquilo que tanto o rico como o sujeito de classe média possuem: alimentação, saneamento básico, saúde, expectativa de vida, meio de transporte, educação etc. A diferença entre a classe média e a riqueza, na maioria das vezes, se limita a substituição de bens e serviços por outros de melhor qualidade e maior preço, e maior quantidade dessas coisas. Isso não é desprezível: essa diferença motiva o esforço de quem quer esses bens e serviços, de quem tem nesses desejos seu combustível para agir. E se beneficia não só quem quer assim, mas muitos à sua volta. Se alguém quer chegar ao topo da pirâmide da renda respeitando os direitos alheios, só poderá fazê-lo mediante trocas voluntárias com outros indivíduos. Vejamos o exemplo de um empresário. Ele produz trecos. Se olharmos para dentro de sua empresa, veremos que cada empregado aceita fornecer seu tempo e seu esforço, em troca da remuneração. Se o faz, é porque julga ser a troca vantajosa. Ele não teria como usar seu tempo e seu esforço de maneira mais “lucrativa”. Olhemos agora para “fora”, para os consumidores, que dão o dinheiro que paga o empregado e enriquece o empresário. Por que eles fazem isso? Ora, porque cada treco tem um valor maior para quem o compra, que o dinheiro dado em troca. Se não, o consumidor não compraria! Não é só isso. Quando começamos a constatar que há um monte de pessoas querendo diminuir as diferenças entre elas e a minoria mais rica (ou, olhando de outro lado, aumentar a diferença entre elas e a maioria mais pobre), vemos que elas têm que disputar os consumidores. Isso leva à produção em massa, aos preços cada vez menores, à qualidade cada vez maior. E na medida em que há bens e serviços melhores e mais baratos disponíveis, todo mundo torna-se mais rico. Ou seja: tendo em vista os resultados positivos para cada indivíduo da sociedade, diferenciar-se dos outros pelo enriquecimento é uma virtude. Por outro lado, querer ser igual à maioria é apenas uma opção pessoal. Porém, querer a igualdade para outros e não apenas para si, ou seja, repudiar a desigualdade em si mesma, não é apenas querer não se diferenciar. É muito mais que isso: é querer impor barreiras a quem aspira diferenciar-se. As barreiras são erguidas automaticamente como resultado dessa mentalidade: à medida que ela vai-se alastrando, as barreiras morais são as primeiras a tolher os indivíduos, porque o orgulho de ser normal é a vergonha de ser superior. Em seguida, paulatinamente, a mentalidade atinge quem tem poder e atinge o poder quem a tem. Daí, as barreiras tornam-se legais, institucionais, concretas. E o processo de enriquecimento pessoal de que se beneficia tanta gente é obstruído. Se a pobreza é um problema, as pessoas devem ser livres para buscarem a riqueza. Conquistarem o que quiserem para suas vidas. Serem desiguais, sim. Porque se essa possibilidade, a liberdade, valer para todos, aí sim poderão agir aqueles cuja atuação vai contribuir para que outros possam ter seus desejos e necessidades atendidos.

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