A destruição criadora

Os mercados financeiros globais permanecem em área de turbulência. Há perplexidade e insegurança. É a hora da verdade, e não há saída fácil para a fase de correção dos excessos cometidos tanto por financistas anglo-saxões como pelos social-democratas europeus. Expulsos do paraíso, os ocidentais estão condenados a vagar por anos de incerteza e declínio.

“Quando analisamos o capitalismo, é essencial compreender que estamos lidando com um processo evolucionário. O impulso fundamental que dispara o movimento e mantém em funcionamento a engrenagem capitalista são os novos bens de consumo, os novos métodos de produção e transporte, os novos mercados e as novas formas de organização industrial criadas pelos empreendedores capitalistas”, diagnostica Joseph Schumpeter em seu clássico “Capitalismo, socialismo e democracia” (1942).

As inovações tecnológicas e a onda de globalização nesta transição do final do século XX para o início do século XXI trouxeram os novos produtos e serviços, os novos mercados globais, os novos setores e os novos empreendimentos que, segundo Schumpeter, “revolucionam incessantemente — por dentro — a estrutura de produção econômica, destruindo implacavelmente a antiga e criando ininterruptamente a nova. Esse processo de Destruição Criadora é a essência do capitalismo”. Estaríamos vivendo, portanto, uma fase inevitável de substituição de antigas estruturas produtivas por novas versões mais eficientes.

Schumpeter destacava o papel dos empreendedores nessa transformação da ordem econômica. Suas inovações não apenas criam riqueza, aumentando o padrão de vida das populações a longo prazo, mas também dissipam fortunas ao destruir empresas e mesmo setores inteiros de uma economia.

Pois bem, a mula sem cabeça da Destruição Criadora está solta na economia mundial. E dizem que anda na companhia de outra besta furiosa, o capitalismo selvagem dos comunistas chineses. Serão engolidos os responsáveis pela hipertrofia do sistema financeiro ocidental, que atuava como infraestrutura de conectividade econômica durante a globalização. Depois vêm os governos perdulários. E finalmente, após nossa desindustrialização por uma combinação perversa de juros altos, câmbio baixo e encargos trabalhistas proibitivos, engolirão também os emergentes que não decifraram o enigma da globalização.

 

Fonte: Jornal “O Globo” – 24/05/10

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