“It is not the speed that kills, it is the sudden stop”- não é a velocidade que mata, mas a parada súbita. Foi com essa frase que o professor do MIT Rudiger Dornbusch introduziu o conceito de “sudden stops” na literatura econômica (num artigo de 1995, para o Instituto Brookings, que tive o prazer de co-autorar). Lembrava apenas que os custos de exageros em economia são pagos não nos momentos de bonança, da aceleração, mas sim quando (e se) houver uma forte reversão desses momentos. Hoje em dia, há vários fatores que justificam o longo período de bonança na economia mundial. Mas será que já estamos na fase do exagero? Quais são os riscos atuais e as projeções para o futuro próximo?

A frase sobre paradas súbitas se referia, na época, a reversões nos fluxos de capitais para países emergentes. Exprimia de forma sucinta a razão pela qual países sofriam quedas no crescimento do PIB, após movimentos globais de capital: a necessidade de se adaptar a ajustes na balança de pagamentos em curtos períodos de tempo. Com as paradas súbitas de fluxos de capital para países emergentes e as crises cambiais dos anos 90 (México, Rússia, Ásia, Brasil), o termo ficou popular (vários artigos do professor Guillermo Calvo foram relevantes). Hoje em dia, com o acúmulo de reservas e com a flexibilidade dos regimes cambiais, as reversões de fluxos de capitais e os seus custos nos países emergentes parecem ser um risco menor. Mas há outras reversões possíveis. Alan Greenspan (ex-presidente do Fed, o banco central americano) disse que vê 30% de chances de uma recessão americana, e Larry Summers (ex-secretário do Tesouro do governo Clinton) colocou as chances em 50%. Essas projeções devem ser levadas a sério?

As projeções em economia são reconhecidamente frágeis. A ciência econômica não permite facilmente realizar testes em ambientes controláveis, como nas ciências exatas. Diversos testes em laboratório replicam experimentos de forma contínua, mantendo controlado o ambiente em volta até obter resultados estatísticos significantes, que venham a contribuir para a evolução da ciência. Na macroeconomia, é praticamente impossível manter o ambiente em volta controlado. Há sempre fenômenos acontecendo ao mesmo tempo. Por exemplo, a apreciação do real é conseqüência dos juros altos, da melhora nos termos de troca ou da queda das amortizações da dívida externa? Todos ocorreram simultaneamente.

Uma saída é tentar usar as experiências comparadas dos países para tentar obter fenômenos econômicos que sobrevivam a diferentes ambientes e que possam ser, de fato, considerados gerais. Essa é a tendência nos organismos internacionais em Washington, que são expostos continuamente a experiências em vários países do mundo. Obviamente, há o risco de generalizações indevidas, o que dificulta a tarefa.

Uma dificuldade ainda maior é tentar obter padrões para a economia mundial vista como um todo (comparamos com Marte?). A saída é olhar o ocorrido ao longo do tempo, com o risco de perder de vista mudanças e desenvolvimentos que podem tornar o futuro muito diferente do passado. É o caso da conjuntura atual. Este período de crescimento robusto irá perdurar? Haverá desaceleração suave na economia mundial?

Recentemente, foram publicados dois relatórios do FMI sobre a economia mundial e a sua situação financeira. O World Economic Outlook analisa o quadro macroeconômico e o Global Financial Stability Report avalia os riscos financeiros globais. Quais são as projeções e riscos para a economia mundial?

1) Espera-se um crescimento mundial ainda robusto em 2007 e 2008 (4,9%), um pouco menor que do ano passado (5,4%). Nos EUA, prevê-se uma desaceleração de um crescimento acima de 3% no ano passado para em torno de 2% nos últimos trimestres. Para os próximos trimestres se espera um crescimento menor ainda, entre 1,5% e 2%. A desaceleração nos EUA é resultado da fraqueza do mercado imobiliário americano e do setor de manufaturados. O maior risco nos EUA é a desaceleração nesses setores específicos afetar o resto da economia, como o setor de serviços e, pelo lado da demanda, afetar o consumo. A questão principal, a meu ver, é projetar se o crescimento da produtividade americana, base do crescimento sustentado, irá retomar para os padrões anteriores ou permanecerá nos valores menores observados recentemente.

2) O FMI acredita que o resto do mundo não irá ser afetado pela desaceleração americana (“decoupling”), dado que essa está concentrada em alguns setores específicos. O risco aqui é o mesmo dos EUA: a desaceleração americana espalhar-se para o consumo e afetar as exportações do resto do mundo.

3) Há um pouco menos de preocupação com os desequilíbrios de balança de pagamentos (déficit grande nos EUA e superávit no resto do mundo), mas aumentaram os riscos financeiros: os problemas de crédito no mercado de hipotecas nos EUA se podem espalhar para outros setores, e as atividades de fusões e aquisições alavancadas têm sido feitas com menos rigor do que anteriormente.

Os fenômenos econômicos sempre demoram muito além do previsto para acontecer, mas, quando ocorrem, surpreendem pela rapidez com que se desenrolam (outra frase do Dornbusch). Hoje em dia, a economia mundial tem surpreendido pelo longo período de prosperidade, em razão, provavelmente, do choque de produtividade (informática, internet) e do surgimento da China como novo fenômeno econômico. Mas não deveriam ser motivos suficientes para que seja abolido das projeções o ciclo econômico como fenômeno mundial: recessões são ainda possíveis. E é bom lembrar que, nesse caso, os custos de eventuais exageros não são pagos nos períodos de expansão, mas nos momentos de reversão.

Por Ilan Goldfajn, sócio da Ciano Investimentos, professor da PUC e diretor do Iepe-Casa das Garças.

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