A economia pós-industrial

Naercio Menezes_instituto Millenium

A chave para o crescimento econômico sustentado de um país é o crescimento de sua produtividade. Os Estados Unidos, por exemplo, tornou-se líder econômico mundial pelo crescimento contínuo de sua produtividade. Nos últimos anos, o Brasil tem crescido principalmente por meio da utilização de mais trabalhadores e máquinas, enquanto a produtividade desses fatores está patinando. Aliado a isso, houve, nas últimas décadas, uma transformação estrutural na nossa economia, com o setor de serviços dominando a geração de novos empregos.

Quais problemas isso tem causado para o crescimento da nossa economia? Como a produtividade pode voltar a crescer?

O crescimento sem produtividade tem causado muitos problemas. O principal deles é que o espaço para crescimento com expansão de emprego está acabando pois a taxa de desemprego atingiu níveis historicamente baixos. Assim, o Brasil só poderá continuar a crescer com forte aumento de salários, o que contribuirá para a volta da inflação e diminuirá ainda mais a competitividade da indústria.

O nosso problema de produtividade foi agravado pelas transformações setoriais que ocorreram na economia brasileira. No início da década de 60, o Brasil era um país essencialmente agrícola. Metade dos nossos trabalhadores estava empregada na agricultura, 15% na indústria e apenas 35% nos serviços. Entre os anos 60 e 80, a agricultura se modernizou, os trabalhadores deixaram o campo e vieram para as cidades trabalhar na indústria (24%) e nos serviços (53%). Hoje em dia o Brasil é basicamente uma economia de serviços, que emprega 65% dos trabalhadores. Somente 16% deles estão na agricultura e a indústria desde 1990 participa com apenas 1/5 do emprego. Economia pós-industrial.

Vale notar que esse mesmo processo tem ocorrido, em maior ou menor grau, com velocidade maior ou menor, em todos os países do mundo. Com a expansão da renda disponível e queda dos preços, resultados do aumento da produtividade agrícola, as pessoas passaram a gastar mais com serviços do que com roupas, geladeiras e televisões. No Brasil, esse processo foi acelerado pela liberalização comercial. Como vários setores industriais no país não podiam competir com outros países, por terem sido protegidos durante muitos anos, a abertura fez com que uma parcela significativa dos trabalhadores industriais fosse transferida para o setor de serviços e para a informalidade.

Como a grande maioria dos trabalhadores está empregada no setor de serviços, o crescimento da produtividade na economia brasileira tem que passar necessariamente por esse setor. Aumentos de produtividade na indústria, conquanto necessários, pouco efeito terão na produtividade e no crescimento do país como um todo. O problema é que a produtividade no setor de serviços é muito baixa no Brasil. Enquanto a produtividade dos trabalhadores agrícolas brasileiros já atingiu 50% dos seus equivalentes americanos, na indústria ela equivale a 20% e nos serviços é de apenas 10%. Como o setor de serviços foi aumentando sua participação no emprego, o crescimento da produtividade na agricultura e na indústria não se refletiu totalmente na economia É por isso que nosso PIB per capita é apenas 20% do americano.

Vale notar que a perda de empregos na agricultura não impediu que ela se tornasse a principal fonte de recursos de exportação hoje em dia. Ao concentrar-se nos produtos em que o Brasil tem vantagens comparativas e produzir inovações constantes nas técnicas produtivas, a agricultura superou o custo Brasil e (com forte ajuda da China) tem contribuído muito para a geração de divisas. A indústria deveria fazer o mesmo.

O setor de serviços abrange, além dos serviços pessoais, comércio, bancos, comunicações, transporte e setor público. Aumentos de produtividade nesses setores, além de afetarem diretamente a economia como um todo, têm impactos importantes na indústria e agricultura, que dependem de energia, transporte e educação eficientes. Mas, como aumentar a produtividade do setor de serviços?

Grande parte dos trabalhadores no setor de serviços está em pequenas empresas, muitas delas no setor informal ou no setor público. Os métodos de gestão de pessoal e de solução de problemas nessas empresas são muito antiquados. Basta entrar num bar e pedir um café ou numa repartição pública para notarmos as ineficiências por toda a parte. Se esses trabalhadores fossem realocados para empresas maiores no setor formal, tudo seria diferente. Para que isso ocorra, o governo deve fazer sua parte. É necessário privatizar empresas, desregulamentar mercados, reformar as leis trabalhistas, simplificar a estrutura tributária e qualificar urgentemente os trabalhadores.

Em suma, a economia brasileira de hoje depende muito do setor de serviços e não há nada o que se possa fazer quanto a isso. Apesar de ter menos “status” do que os setores altamente tecnológicos, o crescimento do país sem inflação vai depender do que ocorrer com a produtividade nos serviços. Para aumentar a produtividade, o governo tem que fazer a sua parte. Mas, para começar esse processo, é necessário, antes de tudo, diagnosticar corretamente o problema.

Fonte: Valor Econômico, 17/02/2012

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