Fruto de intensa propaganda, a imensa maioria das pessoas encara o fascismo como um regime de “direita” e, portanto, diametralmente oposto ao sindicalismo de esquerda. Não obstante, a verdade é que ambos, fascismo e sindicalismo, muitas vezes se confundem, apresentando enormes semelhanças e disputando o mesmo tipo de alma. O estudo histórico da ascensão de Mussolini ao poder pode elucidar melhor este paralelo.

Para começo de conversa, a chegada de Mussolini ao poder foi perfeitamente legal. Como explica Donald Sassoon em seu livro sobre o ditador, “Mussolini fora designado constitucionalmente, prestara juramento de fidelidade ao rei e à Constituição e apresentara seu programa de governo ao Parlamento, dele solicitando e obtendo plenos poderes”. O líder fascista controlava uma massa de militantes uniformizados que representava uma espécie de Estado dentro do Estado.

Mantendo-se nos limites da legalidade, mas permitindo investidas regulares fora dela, Mussolini seria capaz de obter o apoio estratégico de muitos grupos temerosos de um golpe comunista. Estes pensavam que Mussolini, apesar da própria retórica revolucionária, seria capaz de manter sob controle os camisas-negras mais exaltados ao seu redor. Talvez algo análogo ao que o presidente Lula sempre tentou “vender” ao eleitorado de classe média e alta, de que somente ele era capaz de “dialogar” com os radicais do MST, na verdade um braço revolucionário do próprio PT.

“Muitos camaradas, entretanto, logo seriam seduzidos pelos encantos do establishment político que haviam tentado destruir”, diz Sassoon. “Começaram a experimentar os prazeres do poder, o fato de serem temidos e invejados e a desfrutar do respeito daqueles que até então viam com admiração”, ele acrescenta. E mais: “As velhas elites, naturalmente, desprezavam Mussolini, filho de um ferreiro e de uma professora. Ficaram alarmadas com seu aspecto plebeu e sua linguagem rude e populista, mas reconheciam nele alguém disposto a se encarregar do trabalho sujo que não sabiam ou não queriam fazer. Certos intelectuais o admiravam abertamente ou não se dispunham a criticá-lo”.

A demagogia de Mussolini era escancarada: “Em 1931, exagerando absurdamente seus antecedentes de ‘homem do povo’, ele escreveu com certo orgulho que pertencia à classe dos que compartilhavam um quarto que também servia de cozinha, tendo como refeição noturna uma simples sopa de legumes”. A imagem de um homem tão humilde que se tornara primeiro-ministro era usada constantemente como material de propaganda política. Aos poucos, o poder foi sendo concentrado no “homem do povo”, e o que restava de freio constitucional foi sendo abolido. Os poucos jornais independentes que restavam foram amordaçados por uma série de restrições à imprensa. O caminho estava livre para a ditadura.

O fator nacionalista também foi crucial para a escalada fascista. O partido “imaculado” de Mussolini denunciava a incapacidade das velhas classes governantes em fazer frente às grandes potências e restabelecer a grandeza da Itália. “O nacionalismo italiano chafurdava num sentimento de inferioridade”, coloca o autor. O “orgulho nacional” seria resgatado pelos fascistas. Talvez algo parecido com o que os petistas tentam fazer com o governo Lula, alegando que nunca o Brasil fora tão respeitado lá fora, e abusando de uma retórica nacionalista. A declaração antiamericana sensacionalista do próprio presidente, falando que o “elefante” iria tremer diante do “rato”, demonstra como este nacionalismo ainda pesa por aqui.

As velhas oligarquias italianas pensaram que seria possível usar Mussolini para controlar os radicais vermelhos e continuar governando por baixo dos panos. O carismático líder fascista seria apenas uma figura decorativa, e o antigo establishment governaria na sombra, como sempre havia feito. A personalidade magnética de Mussolini irradiaria a energia do poder, enquanto quem daria as cartas de fato seriam os mesmos de sempre. Não contaram com a possibilidade de o dono da popularidade toda resolver assumir o controle do poder por conta própria.

O crescimento econômico serviu para anestesiar as massas também. “Grande parte do crescimento industrial, longe de ser uma vitória da competitividade de mercado, deveu-se ao maciço aumento das compras por parte do Estado”, explica Sassoon. E completa: “A indústria italiana mostrava-se como sempre dependente do governo”. O setor manufatureiro não estava insatisfeito com a situação, pois contava com o grande cliente certo. “O enriquecimento e a corrupção andavam de mãos dadas – tudo sob a bandeira do patriotismo”, conclui o autor. O petróleo é nosso! Viva o BNDES!

O sentimento geral era antiparlamentar, uma vez que o Parlamento era, de fato, um balcão de negociatas. “Da noite para o dia, adversários podiam ser ‘transformados’ em aliados mediante suborno direto ou indireto – razão da designação pejorativa transformismo ser aplicada ao sistema”, explica Sassoon. O “mensalão”, como se pode ver, não é tão original assim. Desenvolveu-se então um sistema de “clientelismo”, no qual “os políticos prometiam empregos aos eleitores e seguidores, proteção e um constante influxo de dinheiro público”. Todos acabaram seduzidos pelas enormes tetas estatais, inclusive os sindicatos. A Itália tinha um dos níveis mais altos de sindicalização da Europa.

Com o benefício do retrospecto, muitos tentam personalizar demais os regimes fascistas, colocando a culpa toda na figura do líder, e ignorando o amplo apoio popular que tiveram. A verdade é que havia simpatia pelos fascistas em muitos setores. A “principal fonte de apoio aos fascistas eram certamente os estudantes colegiais e universitários”, afirma Sassoon. Os industriais acabaram se convencendo de que era necessário entrar em acordo com os fascistas, pois “haviam se tornado a principal força anti-socialista do país”. Entre ter a propriedade confiscada ou ter uma ditadura que servia aos interesses do grande capital, a escolha parecia evidente.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo recente, fez um paralelo entre Lula e Mussolini, lembrando que o presidente precisa de freios constitucionais para seus abusos de poder. Logo depois, entretanto, fez questão de deixar claro que Lula não tem nada a ver com Mussolini. FHC é um típico tucano, sempre em cima do muro. Mas como podemos ver, há sim muitas “coincidências” entre os dois, e se os italianos, mais educados que os brasileiros, foram vítimas do fascismo de Mussolini, nada garante que nós seremos capazes de evitar o mesmo destino. Donald Sassoon conclui:

“Mussolini poderia ter sido contido, mas aqueles capazes de bloquear a sua trajetória – os liberais, a esquerda, a Igreja, a monarquia – não souberam ou não quiseram fazê-lo, caminhando para 20 anos de ditadura como se tivessem os olhos vendados”.

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10 comments

  1. fabio nogueira

    Camarada,quantas comparaçoes idiotas voce vem buscando entre Mussolini e Lula.Somente vindo de voces “formadores” de ipiniao.É vergonhoso ver esse tipo de comentários,idiotas sem pé e sem cabeça.Um governo que tem avaliação de 80% de popularidade,que levou o nome do Brasil a ser respeitado no exterior,tirou mais de 2 milhoes de familias da miséria.Fatos esses que nem o regime militar que acredito que o SR.seja “filhote”,não consegui fazer.

    Rodrigo,voces neo-liberais,intelectauis,diretistas ou mesmo esquerditas nunca se conformaram em dizer o que país está no caminho certo nas admistração de um peão de obra.Tenho certeza que voces estavam torcendo que Brasil se afogasse na crise financeira mundial para colocar a culpa nesse metarlugico.

    O Presidente Lula,já está na História desse país que soube admistrar progresso com distribuíção de rende.

    infelizmente os seus debates são muitos vazio e fracos.

  2. COMO CAMAPARAR UM GOVERNO SOCIALISTA Á UM GOVERNO QUE TEVE SEU MARCO NA HISTÓRIA GRAÇAS A DITÁDURA?,NÃO SEI SE A IDEOLOGIA DE MUSSOLINI PODE SER COMPARADA COM A DE LULA.

  3. Felipe de Oliveira

    Rodrigo,

    Análise impecável. Quem não conhece o mínimo de história é que é erroneamente levado a pensar que o fascismo é igual a extrema-direita. Se assim fosse, Mussolini e Gramsci não teriam sido companheiros de luta política na Itália.

    O melhor (ou pior) mesmo é ler um comentário como o Sr. Nogueira, que mais parece um editorial da NBR, onde não se apresenta nenhuma contestação aos argumentos, simplemente tachando tudo de vazio e fraco. E ainda tem gente assim que se diz jornalista e está sempre disposto a dar uma mãozinha ao Messias nacional contra o famigerado PIG.

  4. fabio nogueira

    O Bom da democracia é que podemos expressar as nossas opinioes sem ter medo da opressão.Estamos vivendo num momento que a sociedade séria,está cansado de lermos,ouvirmos os mesmo tais formadores de opinião quererem falar em nosso nome sem se quermos-nos ser consultados.Ainda mas,quando eses mesmos passam a ser questionados.

    Caso,realmente o Presidente fosse um fascista,metade da mídia monopolizada não existia mais.Durante o governo Lula,li muitas matérias com o bem-perigoso Preconceito brasileiro.Não assume o sucesso desse governo,no pior momento da crise mundial o “peao”,disse que a crise não atingiria o Brasil,todos os criticaram,inclusive o autor do artigo dizendo que Lula fala muita besteira.E qual o resultado?Digam voces mesmo.

    Estamos aos poucos caminhando com os nossos próprios pés e sem dúvida não seremos egoísta de ouvir formadores de opinioes,não ouviremos aqueles cujo o principal objetivo é minipularmos-nos.

    PS.Tenho medo sim do fascismo da mídia golpistas!

  5. Regina Helene

    Nogueira , será que você poderia abandonar os seus pré conceitos e se abrir, sem as suas bagagens pré – determinadas ,para analisar imparcilamente o contexto atual?
    Pelas suas palavras elle continua um “peão” ,e se peão continua sem evoluir na vida mesmo depois de todas as oportunidades que teve , o que delle poderemos esperar?
    Os resultados surgirão , infelizmente, depois que a porteira se abrir.
    Imagino que como eu você também tenha boas intenções, somos pelo Brasil antes de ser por qualquer lado , então o que estamos fazendo?
    Uma coisa é certa , o poder descaminha , principalmente peões.

  6. fabio nogueira

    Olá Regina,

    fazer comparaçoes conforme o texto cita é no minimo um absurdo,ainda mas proveniente de pessoa tão bem informada,liberais e livres de preconceitos.
    Não estou pedindo a ninguem que ame o Lula,tenho minhas criticas quanto ao seu governo,mas,compara-lo a Mussolini…????hum……!!!!É viajar na maionese.

    Mas,valeu Regina.

  7. Diogo Siqueira

    Rodrigo, você tem toda razão. Ótimo artigo. É interessante notar que, durante o século XX, em algumas sociedades, o temor frente a uma ameaça comunista afundou-a ainda mais no socialismo. Isto aconteceu também no Brasil com a ascensão de Vargas. Atento a isso, hoje Lula adota um discurso de centro, conciliador; assim como fizera Mussolini. FHC também o adotou no passado. Serra e Dilma o adotam atualmente. A história da política brasileira parece um roda ovalada, com seu movimento desengonçado. Um grupo político deseja corrigir as mazelas do antecessor rumo à verdadeira “justiça social” e “distribuição de renda”; mas , claro, negando os agouros do comunismo. E assim caminha a política em um grande sobe e desce, catalizado pelo discurso centrista. E o hodierno temor de um futuro governo do PT é a descrição do ápice deste movimento elíptico que parece não ter fim.

    Abraços.

  8. Regina Helene

    Gente , voces estão estagnados em comunismo e capitalismo , pegue o melhor dos dois e faça uma nova frente. Está na hora de sair deste antagonismo e do estar por cima do muro , centro.
    Está na hora de renovar politicamente.

  9. Marcus Vinicius

    Excelente artigo, e congratulações para o editorial, a melhor maneira de se ver que tipo de regime vivemos é saber se podemos nos expressar sem medo. Digo, que o Nazi/Fascismo ou Comunismo são duas faces da mesma moeda, que em nome do Povo, realizam suas crueldades colocando sempre um bode expiatório. Temos que mudar essa política educacional para alimentarmos a nova geração, essa sim, terá em mãos um desafio.