grande repercussão do filme Les choristes (A voz do coração), há pouco em cartaz, recuperou para o cinema um tema caro à literatura – a escola. Chama especialmente a atenção que tema tão comum, recorrente nas memórias, nunca saia da moda.
Cabe convir, glosando Boileau: “Expulse o passado e ele voltará a galope”.
Glosa provocadora, sem dúvida. Mas os romances de formação, memórias e diários contam-se entre os gêneros mais duráveis nos catálogos das editoras. E é certo que não há quem escape ao passado. Nem à escola, rito de passagem. Isso posto, passemos.

Do Renascimento ao Romantismo, a escola primou por sua função moral. A partir do Naturalismo os estudantes, insatisfeitos, enxotam-na de sua vida e do seu coração: maldizem-na, declaram-na castradora, reacionária, condenam os professores, reclamam da disciplina, da opressão, da rotina pedagógica. E como deixou de ser moderna, atual e atuante, ei-la de volta, a galope: na literatura, no teatro e no cinema.
A constante tensão que o tema suscita e que o torna, também por isso, cativante, reside no fato de o objeto impor-se ao sujeito. Vale dizer, o enredo suprime o autor. A escola, representada no corpo docente e discente, encarna o espírito das gerações que um dia freqüentaram suas salas e corredores. É organismo vivo, acometido por espasmos, febres, delírios e convulsões.

Via de conseqüência, nela se sucedem, ao longo dos séculos, personagens tão díspares quanto Domine Cabra, de Quevedo, o órfão Oliver Twist e o disciplinário Mr. Bumble, personagens de Dickens, o professor Unrat, de Heinrich Mann, Cripure, de Louis Guilloux, Topaze, de Marcel Pagnol, o professor Taranne, de Artur Adamov, Aristarco, de Raul Pompéia, Pierre Vernier, de Michel Butor.
Mais recentemente, no cinema, tivemos o professor John Keating, do filme Dead Poets Society, de Peter Weir, o diretor do orfanato do Fonds-de-l’Etang, Monsieur Rachin, e seu antagonista, o inspetor Clément Mathieu, do filme les Choristes, dirigido por Jean Devreville.
Ao focar a figura do inspetor Mathieu, em torno de quem gravitam os coristas, não se furta o cineasta a patentear o confronto a que assistíramos nas classes dos rebeldes sem causa da “geração perdida” do cinema americano. Dessa fase, restam-nos, vivas ainda, as interpretações de Glenn Ford e de Sidney Poitier. Este, no papel de professor.

Cabe no entanto lembrar que se trata, no filme francês, de uma escola-reformatório, destinada à educação de órfãos, menores abandonados e delinqüentes juvenis. Daí, o interesse do retrato cruel de M. Rachin, homem de temperamento irascível, mau e despótico, o único habilitado a opor resistência ao desmando e à agressão selvagens. Em contraponto, o inspetor Mathieu, músico de formação, afável e compreensivo, impõe-se pela simpatia e vence a animosidade dos pequenos selvagens descobrindo-lhes pendores musicais.

Sob os bons auspícios da poesia, o professor de Dead Poets Society, desperta os sentidos e a inteligência dos estudantes para a beleza, ensina-os a ver e a comover-se: dá-lhes lições de vida. José Carlos Avelar, crítico de cinema, observou com acerto serem determinantes na condução do filme as tomadas de paisagem em volta do colégio. E são elas, no meu entender, que definem a linguagem e o estilo do cineasta.

Tal como acontece em O Ateneu, o nosso clássico do gênero. Atento e sensível, Raul Pompéia, seu autor, assim explica o que entende por estilo: “O estilo gradua-se proporcionalmente ao tema. Estilo representativo de uma idéia, estilo representativo de uma sensação. Desenho e tinta”. Inspirado na écriture artiste dos Goncourt, o escritor não limita seus caprichos estéticos à caracterização das personagens. Sua arte de ver e representar com vivacidade de cores e de gestos alcança não só a paisagem exterior como, também, o quadro em que se movem as personagens do romance. Por isso, o Ateneu não é apenas “o casarão imponente, de quarenta janelas, resplendentes do gás interior”. O Ateneu é Aristarco e toda a fauna que se abriga nesse “cenário animado de safira com horripilações errantes de sombra, como um castelo fantasma batido de luar verde emprestado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e recordações”. Claro que há também aí uma biblioteca, a sala de estudos, a capela, o refeitório… Nada escapa ao miniaturismo de Pompéia. O romance é, na sua concepção, “um arcabouço dramático, em que o autor ao mesmo tempo que tem de animar as personagens, deve ser o cenógrafo, o marcador, o ensaiador, o contra-regras e anotador das atitudes dos figurantes”.
Por esses e outros motivos, nenhum livro de nossa literatura mais se prestaria a uma mise-en-scène. O próprio autor assume, às vezes, o papel do espectador e “comenta, com observações suas, os gestos, as palavras, as situações dos seus fantoches”. Se nada lhe falta para passar à tela ou ao palco, é hora de apresentá-lo a um Peter Weir tupiniquim…

Impiedoso e sarcástico, o romance de Raul Pompéia constitui-se em testemunho pessoal sobre a vida nos internatos. Ao descrever, no epílogo, o incêndio que destrói o “imponente casarão”, o menino Sérgio, alter-ego do autor, exorciza os fantasmas da adolescência. “Na atmosfera luminosa da manhã, o sossego fúnebre que vem no dia seguinte sobre o teatro de um grande desastre” parece conciliá-lo, enfim, com o passado tenebroso. Igual solução dramática daria fim ao internato de Fonds-de-l’Etang onde pontificava Monsieur Rachin. O fogo foi ateado por um aluno a quem o diretor expulsara do internato depois de espancá-lo ferozmente. Apaziguado, o rapaz contempla, da distância, o êxito de sua vingança.

Embora retirado de um livro de reminiscências, Les choristes não é mera “crônica de saudades”. Tanto no filme francês como no romance brasileiro, a imersão do sujeito e espectador no próprio passado configura uma espécie de consciência narrativa. Mas enquanto o filme se desembaraça das lembranças cruéis, o romance insiste na sua morbidez justamente para ultrapassá-la. Seu papel é liberador.

Ficção autobiográfica, confissão transparente de uma adolescência mal vivida, Raul Pompéia celebra, nessas páginas, seu réquiem solene. Não convém buscar na intriga a figura do pai. Tampouco se deve imaginá-la figurada no diretor despótico. Imobilizado nos ponteiros do relógio pelo incêndio, sequer o tempo “funeral para sempre das horas” terá sido seu principal algoz (Refiro-me ao tempo de sua estação no inferno). O livro exuma, com pompa e circunstância, as frustrações e as mágoas do menino tímido que foi um dia o romancista. Mercê do resgate do passado, Pompéia enclausura no Ateneu sua idéia da infância e da adolescência. Era absolutamente necessário que as chamas o consumissem para que seu processo chegasse a bom termo. Gesto de um ressentido? Talvez. Mas… como sabê-lo?, se Pompéia optou pela polidez do desespero, suicidando-se aos 32 anos, sete anos após a publicação de O Ateneu…

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