Corrupção na administração pública há em toda parte. O que difere é a intensidade, que varia em função do nível de intervenção do Estado na vida social e, principalmente, da reação dos povos diante do problema. Enquanto nações que dispõem de controles institucionais rígidos, leis transparentes e, acima de tudo, têm a verdade como um valor supremo tendem a cobrar dos seus representantes atitudes enérgicas contra a bandalheira e não se deixam engabelar com facilidade, outras demonstram excessiva leniência diante da questão.

O nível de tolerância das sociedades em relação ao problema da corrupção pode ser medido não apenas pelos índices de impunidade, que em países como o nosso chegam perto da totalidade, mas também pelas reações dos criminosos quando “fisgados” pela lei. Recentemente, dois cidadãos japoneses cometeram suicídio porque julgaram que não poderiam conviver com tamanha desonra.  Há alguns anos, um funcionário público norte-americano deu um tiro na própria boca, em frente às câmeras de TV, porque, flagrado num caso de corrupção, simplesmente “não suportava mais olhar nos olhos dos filhos”.

Já no Brasil, a coisa tem funcionado de forma diferente. Políticos e agentes públicos, por mais fortes que sejam as acusações e evidências contra eles, sequer se dignam a afastar-se dos cargos durante as investigações e processos, enquanto seus superiores, correligionários e até mesmo opositores agem como se nada houvesse. Honra, probidade, dignidade e vergonha na cara são valores há muito aposentados pelo advento do relativismo moral.

Ninguém assume coisa alguma. Ninguém jamais confessa nada. Sempre há um bom pretexto, uma estória mirabolante a justificar qualquer coisa, por mais estranha e inverossímil que possa parecer. Inventam-se álibis, desculpas esfarrapadas e enredos os mais diversos para escapar. E o pior de tudo é que, na maioria das vezes, cola.  A maior prova disso é que nenhum político foi condenado pelo STF nos últimos 40 anos, segundo reportagem recente deste jornal.

Ao contrário das nações que desenvolveram sociedades avançadas, fundadas em padrões morais onde prevalece a verdade, nossas instituições (formais e informais) foram estabelecidas em função da mentira.  Que o digam as nossas leis.

Certa vez tentei explicar a um sujeito inglês o que vem a ser uma cópia autenticada em cartório e o porquê da sua exigência ser tão disseminada no Brasil.  Parecia uma conversa de surdos.  Meu interlocutor não entendia que as pessoas pudessem desconfiar da autenticidade de um documento antes mesmo que este lhes fosse apresentado. Sequer lhe passava pela cabeça que a palavra do portador ou responsável não bastasse.  Que dizer a ele então sobre o famigerado atestado de residência?

Como a verdade deve ser sempre provada e comprovada, ela passou a ser vista como exceção, não como regra.   Por outro lado, a mentira é aceita como um hábito, uma tradição incorporada pela própria lei.  Diferentemente do que ocorre em muitos países, onde o crime de perjúrio é gravíssimo e, quase sempre, funciona de forma a aumentar a pena, por aqui a mentira dita em juízo não costuma trazer maiores conseqüências.  Pelo contrário, sua utilização é, em muitos casos, tida como perfeitamente legítima.

Há algo mais patético do que aqueles inquéritos parlamentares, transmitidos ao vivo pela TV, em que os depoentes respondem às perguntas protegidos por uma liminar que lhes concede o “direito” de omitir a verdade em benefício próprio?  Quem não se lembra, por exemplo, do jeito cínico, beirando o escárnio, de alguns indivíduos que por ali passaram, todos devidamente autorizados a mentir?

Aristóteles já dizia que as virtudes morais não são plantadas em nós pela natureza, mas são produto do hábito.  O comportamento humano, por seu turno, é influenciado por estímulos e incentivos produzidos pelos ambientes natural e social.  Assim, se o meio é propício à mentira, se o engodo é incentivado pela própria cadeia institucional, se não criamos as condições necessárias para que a verdade seja regra e não exceção, não adianta reclamar.

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