Paulo Guedes: A falência do dirigismo

“Fui um bom profeta. Pelo menos melhor que Marx. Ele previra o colapso do capitalismo; eu previ o contrário, o fracasso do socialismo. Minha luta pela implantação de uma economia de mercado no Brasil, baseada na certeza da falência do dirigismo socialista, foi uma pregação no deserto. Os traços marcantes do socialismo passaram a ser ineficiência e corrupção, não idealismo e progresso”, registrava o economista e diplomata Roberto Campos, no capítulo XX de suas memórias, “A lanterna de popa” (1994).

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É uma ironia histórica que o centenário de Campos seja hoje celebrado em meio à incontornável evidência de degeneração de nosso sistema político pelos excessos do intervencionismo dirigista.

Suas raízes foram plantadas ainda no regime militar, mas irrigadas pela social-democracia brasileira. O PMDB teria se corrompido, levando à criação do PSDB.

Com a reeleição aprovada pelo PSDB sob suspeitas, em movimento sempre à “esquerda” veio depois o PT. Demos a volta ao mundo, sempre à “esquerda” em nome da ética e da transparência, até chegarmos novamente a um governo do PMDB, após mais um impeachment, fechando o ciclo da Nova República com a morte da Velha Política.

A corrupção sistêmica revela a omissão ou a cumplicidade de nossas principais lideranças partidárias com esse abastardamento da política, sob o assalto de interesses privados.

Empresários, intelectuais e trabalhadores foram também corrompidos pela engrenagem dirigista.

Na selva do dirigismo de quadrilhas, evoluem há décadas as criaturas do pântano — os piratas privados, os servidores públicos desonestos e os políticos corruptos.

Campos decifrara o enigma que devorou a classe política brasileira. A corrupção e a estagnação econômica eram as duas faces de uma mesma moeda: o colapso do intervencionismo dirigista.

E pedia ainda em 1994, por ocasião do Plano Real, “uma reforma da Previdência Social, hoje condenada a um déficit estrutural pela proliferação de aposentadorias precoces, pelo crescimento da economia informal e inadequada relação contribuinte-beneficiário, impondo-se também a substituição do regime de repartição pelo de capitalização”.

Acelerar as reformas, particularmente a do Estado, é o caminho para asfixiar a corrupção e recuperar nossa dinâmica de crescimento.

Fonte: “O Globo”, 17 de abril de 2017.

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