As coisas andaram mais calmas nesta semana, mas ainda ninguém se animou a considerar a crise financeira encerrada. Ao contrário, praticamente todos os analistas e autoridades monetárias globais repetiram: esperem por mais instabilidades.

Há uma razão forte para manter essa sensação de insegurança. Até aqui não se sabe exatamente o tamanho dos créditos podres espalhados pelo sistema financeiro mundial. Sabe-se que bancos e instituições não vão receber de volta o dinheiro que emprestaram. Sabe-se que cotistas de fundos de investimentos poderão se considerar sortudos se conseguirem salvar alguns trocados. Mas quais bancos, quais fundos, de quanto é a perda e como será coberta?

Até que isso esteja esclarecido, permanece a desconfiança de que o crédito podre esteja com o freguês do lado, de modo que é melhor não fazer negócio com ele. Não é que faltou dinheiro no mercado. Faltou confiança. Daí a ação dos bancos centrais do mundo desenvolvido de “injetar” e “despejar” bilhões de dólares no mercado, como disse o noticiário aqui e lá fora. Verbos mal colocados, porém, pois dão a impressão de que se trata de dinheiro dado. Foi essa aliás a interpretação de muita gente: os bancos centrais estão salvando os especuladores do buraco, depois de terem eles (os mesmos bancos centrais) criado as condições para que os especuladores ganhassem dinheiro fácil.

Duplo equívoco. Primeiro, não se trata de dinheiro dado. Os bancos centrais estão emprestando dinheiro a bancos idôneos e sólidos, a juros um pouco mais altos do que os fixados nas taxas básicas, mediante garantias, e também recomprando títulos bons, porém não comercializados no mercado por falta de confiança. Não estão resgatando especuladores – embora seja provável que parte dos especuladores pegue carona. Estão garantindo o funcionamento do mercado de crédito para a economia real, isto é, garantindo que empresas e pessoas continuem operando.

O segundo equívoco é acusar os bancos centrais em geral e o norte-americano em especial, o Federal Reserve, Fed, de terem promovido uma farra do crédito que facilitou a especulação.

O que os BCs e o Fed, em especial, fizeram, depois das crises do final dos anos 90 e início deste século, foi, antes de tudo, reduzir juros e ampliar crédito para apoiar a economia real, empresas e consumidores. E, para evitar crises, criaram regras para minimizar riscos. Bancos foram obrigados a seguir normas de prudência mais rigorosas.

Já o mundo dos fundos de investimento, o imenso mercado global, é mais difícil de ser controlado, dada a enorme capacidade dos agentes privados de criarem novos instrumentos. Mesmo assim, a segurança e o baixo risco são fatores de interesse do próprio mercado, pela simples e boa razão de que reduzem as chances de se perder dinheiro, esta a pior punição possível.

Tudo considerado, o sistema tornou-se uma máquina de conceder crédito firme. Essa massa de crédito não ficou dançando no mercado financeiro, trocando de especulador a cada música. O crédito, muito especialmente, financiou a compra da casa própria nos EUA – e todo mundo sabe como a indústria da construção civil movimenta um país inteiro.

Em resumo, o crédito assim espalhado, a partir de poupanças, financiou investimentos de empresas e o consumo das famílias. A economia mundial cresceu na faixa dos 5% anuais, com o comércio global se expandindo o dobro disso. Foi uma seqüência inédita na história moderna, o triunfo da globalização.

E aí, sim, vieram os excessos. Considere uma imobiliária que vendeu casas para todos os clientes de sua carteira, um banco que financiou todos os seus correntistas. Se continuam em condições de construir e financiar mais moradias, o que fazem? Há muitas possibilidades: vender outras casas para os mesmos clientes, refinanciar as mesmas casas já que os preços subiram, arranjar novos clientes em outros bairros ou em outras faixas de renda, dos milionários aos mais pobres.

Como tudo ia dando certo, economia bombando, dá a impressão de que sempre vai dar certo. Aí, os critérios de concessão de crédito começam a afrouxar, os tomadores de empréstimos não vêem mais os riscos. Quando algo dá errado – caem os preços das casas, as prestações sobem muito e ficam “impagáveis”, os salários não sobem como o esperado – tudo dá errado. E o sistema de espalhar o crédito, para minimizar o risco, acaba espalhando as perdas.

Aí dizem certos críticos: não falamos? A farra do dinheiro fácil só podia dar nisso.

Mas se os bancos centrais tivesse elevado juros e cortado os financiamentos lá atrás, teriam talvez o evitado o excesso de hoje, e também teriam eliminado a possibilidade de um crescimento brilhante. Seria como proibir uma grande festa para evitar que alguns bebessem demais.

(O Globo, 23 de agosto de 2007)

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