A Grécia arruinará o euro e a Europa?

Tornou-se quase dominante entre os analistas econômicos de porte mundial, inclusive o aclamado Nouriel Roubini, prever a quebra política da União Europeia, eventualmente com a saída ou expulsão dos chamados países periféricos da Comunidade.

De fato, a situação é bastante delicada, diante da impossibilidade de um ajuste monetário via depreciação do câmbio, ou seja, a Grécia não tem mais o dracma para desvalorizar, tornando-se mais competitiva na relação com o marco alemão, que tampouco existe mais.

Este argumento da impossibilidade do ajuste grego, português ou espanhol, contém falha técnica grave. Todos os países podem se ajustar, desde que arcando com algum sacrifício e temporária perda de poder de compra e conforto social.

Não é por outra razão que a população grega saiu às ruas anteontem, num quebra-quebra geral, em protesto contra as inevitáveis perdas de renda e emprego. O essencial, no entanto, é não perder de vista o panorama mais amplo da crise.

A Grécia, por si, fora do ambiente comunitário, terá um caminho muito mais longo de recessão do que amparada por uma reestruturação financeira dentro do grupo.

Por seu turno, os bancos credores alemães, franceses e espanhóis, teriam uma poda muito mais radical em seus ativos no caso de a Grécia partir para o default aberto, à la Argentina em 2001.

Mais um motivo para deixar a Grécia dentro do time e comprometida com maior disciplina fiscal futura. Este é o desafio político do momento.

O argumento do rompimento útil dos periféricos da Europa tem semelhança com a situação de algum estado brasileiro que, por hipótese, preferisse desligar-se do resto do Brasil, criando moeda própria para competir em vantagem. Seria, com certeza, uma decisão equivocada.

Outro não é o caso, inverso, de alguns de nossos vizinhos de fronteira. Apesar de terem moeda mais desvalorizada em relação ao real, nem sempre obtêm margem competitiva nos seus produtos ou maior conforto social e estabilidade.

Quando não se pode desvalorizar, ensina a boa teoria econômica que o essencial é manter a mobilidade dos fatores da produção dentro do mercado da moeda única. Assim, se uma região sofre um processo de menor crescimento relativo, sua mão-de-obra começará a emigrar para as regiões mais dinâmicas.

Fatalmente, o menor custo do trabalho na área deprimida facilitará a retomada, quando a crise financeira e fiscal for equacionada. Não há qualquer benefício líquido para os periféricos abandonarem o barco da Comunidade, quer para eles mesmos, quer para os que “bancam a festa”, pressupondo que a disciplina fiscal possa ser retomada.

Pouco é lembrado que a Alemanha e França usufruem, no momento, de uma vantagem competitiva imprevista, por terem o euro muito menos valorizado do que se funcionassem hoje com o marco alemão ou o franco francês. O fato de serem cotados em euros torna os produtos alemães mais baratos e aumentam, assim, a empregabilidade naquele país.

Este é um aspecto positivo e inesperado da crise. A Alemanha banca, mas ganha. Seu grande desafio é como construir a disciplina fiscal necessária nas várias nações comunitárias e fazer valer a regra de boa conduta.

Quem sabe, nossa experiência recente com a adoção da Lei de Responsabilidade Fiscal seja uma boa ideia para eles.

Fonte: Brasil Econômico, 17/06/2011

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