Ainda bem que o Brasil não tem a necessidade imediata de um sistema de defesa exemplar, capaz de defendê-lo de vizinhos hostis. E talvez seja exatamente por esse motivo (a falta de um inimigo claro e ameaçador) que a questão dos caças que reequiparão a Força Aérea Brasileira venha se arrastando por tanto tempo.

Mas agora, 16 anos depois do início das discussões em torno desse assunto (que tiveram início ainda no governo Fernando Henrique Cardoso), parece que a presidente Dilma Rousseff quer pressa na escolha do avião.

Pelo menos é o que diz o ministro da Defesa Celso Amorim. Só para recapitular, estão na disputa o francês Rafale, da Dassault, que contava com a preferência do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o americano F-18, da Boeing, e o sueco Gripen, da Saab. Quem ganhar a disputa terá um contrato que poderá chegar a US$ 6,5 bilhões – com a entrega prevista de 36 aviões de combate bem mais modernos do que a atual frota da FAB.

Ótimo. Tomara que a presidente Dilma tome logo a decisão, que os aviões sejam encomendados e que essa novela tenha um desfecho. O Brasil está entrando numa nova etapa no cenário internacional, e a nova realidade o colocará diante da necessidade de maior zelo com a defesa das fronteiras e com a segurança interna.

E isso exigirá não só a compra de equipamentos de última geração para as Forças Armadas e para as polícias, como, também, uma mudança geral de mentalidade em relação a um problema que jamais foi tratado com a devida seriedade em nosso país.

Com a expansão da economia, a nova importância no jogo internacional e os eventos que atrairão a atenção do mundo inteiro, o Brasil corre o risco de se transformar em algo que nunca foi até aqui: alvo de atentados terroristas.

E antes que algo de ruim aconteça e que tenha início o Deus-nos-acuda típico dos imprevidentes, é bom começar a adotar procedimentos que, além de novos equipamentos, exigem uma melhor seleção e treinamento das pessoas e a adoção de cuidados que, à vista de muita gente, podem ser considerados um exagero.

O descaso com as políticas de segurança no Brasil é quase uma questão cultural. A procrastinação na compra dos caças, a falta de um sistema eficaz de vigilância nas fronteiras e o despreparo dos funcionários que carimbam os passaportes dos estrangeiros que visitam o Brasil em quantidade cada vez maior são partes do mesmo problema.

A impressão que se tem é que, se a Al-Qaeda ou qualquer outra organização terrorista quiser instalar um campo de treinamento em território brasileiro, terá liberdade completa de ação e não haverá quem a importune.

Muita gente, com certeza, tomará essa frase como um exagero – e insistirá na ideia de que não, o Brasil não necessita de medidas mais rigorosas de segurança. A verdade, por mais incômoda que seja, é que o crescimento econômico e o enriquecimento do país trazem consigo algumas exigências que não combinam com o jeitinho brasileiro de deixar como está para ver como é que a situação fica.

Se o Brasil quer ser grande, precisa adotar procedimentos de países grandes – com mais investimentos em áreas que, até aqui, eram consideradas secundárias. Isso é líquido e certo.

Fonte: Brasil Econômico, 28/02/2012

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