A ilusão do pleno emprego

Ao ler meu artigo “O falacioso sucesso do Bolsa Família“, compartilhado no Facebook, um leitor do Instituto Millenium me questionou sobre diversos pontos de supostos êxitos dos (des)governos que estão atualmente no comando do país. O leitor apontou itens nos quais, segundo ele, o governo estaria tendo sucesso e me perguntou se tais itens não “contavam”. Contariam caso o sucesso fosse real, mas, infelizmente não é, como pretendo provar em uma série de artigos, que inicio por esse, sobre o pleno emprego.

Conforme afirma a propagada oficial, nosso país está muito próximo de atingir o nível de pleno emprego dado a manutenção de baixos níveis da taxa de desemprego nos últimos meses. Será a realidade tão satisfatória assim? Como de praxe, não. Em linguagem econômica, pleno emprego é “o emprego de todos os fatores de produção, o que em termos de força de trabalho poderia significar a igualdade entre a população economicamente ativa e a população ocupada ou empregada” (GREMAUD, VASCONCELOS, TONETO JR. Economia Brasileira Contemporânea, p. 91). Os dados a seguir deixarão claro que estamos bem longe disso.

Se estamos atingindo o pleno emprego, por que tanta gente está buscando fazer concurso público?

De acordo com informações oficiais do IBGE, a taxa de desemprego do país em abril deste ano foi de 5.8%, a mais baixa da história até então. Número suficiente para diversas instâncias governamentais e partidárias saírem afirmando a revolução, como gostam do termo, provocada na criação de empregos no país. No entanto, foram desatentos a um estudo publicado simultaneamente pelo IPEA, também órgão do governo, que afirmou categoricamente que estamos bem distantes da situação de pleno emprego, por algumas conjunturas bem específicas, a saber.

De acordo com dados do IPEA a média de recuo na produção industrial em 2012 no Brasil foi de 0.65%, sendo que no mês passado esse índice atingiu 0.90%, muito acima da média. Além disso, apesar do aumento de trabalhadores com carteira assinada, esse número ainda é pequeno se comparado com o enorme contingente que se encontra na informalidade. Outro fator que colabora para dificultar que se alcance o pleno emprego é o alto nível de oscilações nas atividades produtivas em nosso país, fazendo com que grande parte da população tenha sua capacidade subutilizada.

Não bastasse esses dados, o MDS, órgão do governo que gerencia os programas sociais, e o Ministério do Trabalho, estão buscando descobrir fraudes em dois dos principais programas de transferência de renda do governo: o Bolsa Família e o Seguro-Desemprego, tendo em vista que em ambos os casos tem sido descobertas situações em que as pessoas não querem formalizar suas relações de emprego/trabalho para não perderem os benefícios governamentais.

Temos a situação ainda da ausência de preparo dos trabalhadores, tendo em vista que diversos setores não podem admitir pois falta pessoal qualificado para seus postos de trabalho, tais como a indústria do petróleo e a da tecnologia da informação, nesse caso atingindo o setor de educação, extremamente frágil em nosso país. A realidade se impõe novamente para mostrar o quão ilusório são os fatos noticiados pelo governo. Mas acredita quem quiser ou não souber interpretar. No final das contas, ficamos com a pergunta que não quer calar: se estamos atingindo o pleno emprego, por que tanta gente está buscando fazer concurso público?

RELACIONADOS

Deixe um comentário

7 comments

  1. acm

    caro Sandro:

    de fato, os dados no Brasil sao como na Argentina e Venezuela: tudo falsificado (The Economist ja cancelou a Argentina de suas analises pela falsidade dos dados — ela publicou isso faz pouco tempo)

    mas quanto aos concursos públicos, a explicação é simples: o emprego privado e’ sujeito a muito turn over, enquanto o publico e’ estavel: incompetencia e roubo nao e’ motivo de demissao, como e’ regra geral na area publica (se nao, as reparticoes estariam vazias…)

    outra razao e’ q os aprovados trazem mais votos p/ o pt (o chamado cabide)

    pessoalmente, qdo procuro dados sobre o brasil, geralmente consulto fontes externas (fmi, world bank, federal reserve etc.)

  2. Glauco Zerbini Costal

    Respondo esta pergunta com tranquilidade:

    As pessoas estão buscando fazer concurso público pelos seguintes motivos:

    – Nossos empresários são cínicos, mentirosos, arrogantes e inescrupulosos. Possuem uma ansiedade muito grande de enriquecimento. Prometem maravilhosos planos de carreira, mas raramente você vê uma empresa que realmente cumpre o que promete. Isso gera o pula pula de um emprego para o outro;

    – Os salários pagos pelas empresas são ridículos perto dos pagos pelo governo. O Gari que dirige o caminhão de lixo ganha cerca de R$3300,00, mais do que um Engenheiro Jr. ganha na maioria das empresas. Se você passar para um cargo de gestão vai ganhar R$13.000,00 iniciais. Quando você ganharia isso em uma empresa tupiniquim?

    – Você tem estabilidade quando é servidos público. Ao contrário da iniciativa privada, em que se o dono acordar de mau humor ele manda uma galera embora, independente de quantos anos você tem de serviço. Ou se tem família ou não.

    Simples não?

  3. gilmar

    outra contradição e o INSS só vive no vermelho para onde vai o dinheiro arrecadado destes novos empregados ?

  4. Guerson Mai

    Resposta à pergunta no fim do artigo: Será porque paga melhor? Será porque tem plano de benefícios (seguro de vida, plano de saúde, previdência complementar etc.)? Eu não acredito que eu li essa pergunta!!!

  5. paulo

    o dinheiro arrecadado vai para pagar servidores públicos que pagaram como se ganhassem x e conseguiram de última hora de vida laboral um emprego melhor e ganham o último soldo… os aposentados rurais que nunca deram um conto de contribuição e ganham benefício. e por fim todos os outros que recebem benefícios sem contribuir. eu imagino que seria saudável separar os institutos e assim deixar claro de onde viria o dinheiro para cada pessoa.

  6. Ricardo Dias

    A proposição de que o pleno emprego em linguagem econômica é o emprego de todos os fatores de produção vem muito a calhar, principalmente quando vemos o país em situação de desindustrialização e uma indústria de serviços em expansão. Não que isso seja desinteressante, mas não acoberta os graves problemas estruturais relativos a indústria e a um Estado protetor de grandes empresas. Certamente este posará de bom moço.

  7. Luciana Santos

    Infelizmente, o benefício do seguro desemprego funciona de forma inadequada no país, recusei uma carta de apresentação do sine, que ao pegá-la, automaticamente, esse benefício fica bloqueado por cerca de 50 dias… Perguntei, desde quando uma entrevista significa emprego?Realmente pela delonga de homologações por parte do Ministério do trabalho, faz com que recusemos sim, a carta. Pois os fins, não justificam os meios e acaba dificultando o ser humano de tentar retornar ao mercado de trabalho. No meu ponto de vista, deveria ter uma revisão desse tópico na lei, pois recusei e fui de certa forma forçada a ficar mais um tempo sobre “às custas do governo”… Erro de quem?