A liberdade de expressão na era da fragmentação da mídia

Ainda me lembro da primeira vez em que consegui me comunicar com a “sociedade”. Eu devia andar pelos meus 18 anos e queria manifestar minha visão política. As opções não eram muitas. Eu poderia produzir um jornal caseiro, diagramar, imprimir, etiquetar e distribuir pelo correio (se conseguisse uma lista de endereços) ou distribuir de mão em mão, na saída de um cinema ou na parada de ônibus. Optei por uma segunda alternativa: mandar uma carta para o jornal. Caprichei na carta, datilografei, imprimi e coloquei em um envelope. Peguei o ônibus, fui no correio e postei. Nos dias seguintes fiquei na torcida. Eram centenas de cartas e o editor precisava simpatizar com a minha. No quinto ou sexto dia aconteceu. Estava lá o texto, na seção de Cartas do Leitor. Haviam cortado quase tudo, mas mantiveram o núcleo central do argumento. Comprei o jornal, triunfante. Nunca soube se alguém de fato leu a minha carta, mas guardei aquele jornal por anos, até que um dia joguei fora.

Parece que isso foi no século XIX, mas não. Foi em meados dos anos 1980, em Porto Alegre. Trinta e tantos anos atrás. É mais ou menos disso que se fala quando se diz que o mundo assistiu a uma revolução nas últimas três décadas. Uma brutal revolução cujo epicentro é justamente o modo como produzimos, transmitimos e consumimos informação. Observe-se o que se passou com o poder da mídia tradicional. O editor do jornal tinha a chave do portão. Ele decidia quem poderia escrever um artigo ou fazer publicar uma opinião.

Hoje em dia tudo explodiu. Leva apenas alguns segundos para o sujeito tirar o celular do bolso e digitar uma opinião qualquer nas redes sociais. Eu pensei muito antes de imprimir aquela carta, nos anos 1980, mas agora o custo é baixo. Ninguém vai cortar ou editar o que escrevi. Se não quiser escrever, posso fazer um live. Compro um pau de selfie, ligo a câmera e saio andando pela cidade. Viro repórter. Viro mídia ninja. Misturo fatos e opiniões do jeito que eu quiser. O benefício é todo meu. E o risco é muito baixo.

Há quem faça um uso extraordinário disso tudo. Milhares de pessoas, para ser honesto. Caras como Salman Khan, o jovem filho de uma imigrante indiana que começou a postar aulas caseiras de matemática quando trabalhava em um fundo de investimento no Vale do Silício. A coisa pegou, e Khan se tornou uma celebridade mundial, com mais de 1 bilhão de visualizações em seus milhares de aulas digitais.

Eis o nosso mundo: a era da abundância de informação. O mundo da fragmentação das alternativas de mídia e, por via de consequência, da perda de hegemonia por parte dos veículos tradicionais de informação. Em 1980, 40% das residências americanas sintonizaram um dos três canais de notícias líderes de audiência, contra apenas 18,2% em 2006. A consultoria americana Nielsen mostrou que a audiência tradicional de televisão entre o público de 18 a 24 anos caiu 38% nos últimos cinco anos. Pela primeira vez, o consumo de programação on demand, oferecido por provedores como Netflix e Amazon Prime, divide a audiência dos lares americanos. Há aqui uma tendência. As pessoas gostam de escolher. O mercado ajusta-se ao gosto das pessoas e torna-se mais sofisticado. Não haverá recuo nesse processo.

O mesmo acontece com o consumo de informação. O Pew Research Center mostrou que, em apenas quatro anos, entre 2012 e 2016, cresceu de 49% para 62% o percentual de americanos que se informam por meio das redes sociais. O Facebook é a fonte mais importante, sendo utilizado por 44% da população adulta para consumo de notícias. Há muitos riscos aí. A chamada “tribalização” é um deles. Tendemos a consumir informação de quem gostamos e confiamos. O ponto é que havia riscos de outra natureza quando quase toda informação era gerada por quatro ou cinco grandes veículos de comunicação.

No Brasil, o fenômeno é o mesmo. O número de assinantes de canais pagos cresceu 500% entre 2000 e 2013. O país deu um salto de 3,5 milhões de assinaturas, em 2000, para mais de 18 milhões, em 2013. As cinco principais emissoras de TV aberta (Globo, Record, SBT, Bandeirantes e Rede TV) passaram de 39,3% para 28,2% de audiência. A tendência é a mesma: crescem as opções de acesso e dilui-se progressivamente o domínio deste ou daquele veículo sobre o mercado.

A tecnologia tem avançado não apenas no sentido de favorecer a diversificação do consumo, mas também da autoria. Em 2010, 11,9% dos usuários de internet nos Estados Unidos mantinham um blog, e os números têm crescido ano a ano. E mais: há uma crescente indistinção entre blogs, em sentido amplo, e os canais de mídia tradicional. Gradativamente, migramos da era da audiência passiva para uma cultura de autoria. Da era da comunicação de massa para a “autocomunicação de massas”, na expressão de Manuel Castells, em que a via de mão única entre emissor e receptor dá lugar a um universo fluido de produtores de informação.

Nesse universo algo caótico, não há dúvida de que gozamos de uma quase irrestrita liberdade de expressão. Diria mais: nosso desafio é conviver, no dia a dia, com seus excessos. É nosso destino. Ninguém vai controlar a informação. É simplesmente uma ilusão imaginar que redes mundiais como o Google e o Facebook vão controlar os excessos da “pós-verdade”. Que haverá um grande computador onisciente capaz de dizer o que é ou não uma boa informação. As pessoas terão de aprender, cada vez mais, a estabelecer seus próprios critérios e a agir seletivamente.

Alexis de Tocqueville teria gostado de ver isto. Em seu “A democracia na América”, ele identificou a garantia da liberdade de expressão e imprensa exatamente na ideia de que “ninguém está no controle”. Nenhum veículo, por mais eficiente que seja, consegue mover sozinho uma onda de opinião. Há simplesmente um mar revolto, atravessado por múltiplas correntes. E por aí devemos navegar.

A mídia profissional tem aí um papel a cumprir. Diria que seu maior desafio é exatamente resistir à “moda internet”. Resistir à lógica do escândalo, à excitação e à crispação fácil de opiniões, ao pluralismo forçado que sempre enxerga “polarização ideológica” em qualquer coisa. Fugir da “meia pós-verdade”, que é dada pela nuance, pela dosagem do texto jornalístico segundo simpatias e antipatias políticas. Nada disso é muito simples. O mundo da informação abundante trouxe novas responsabilidades para a mídia profissional. Encarar isto é a condição para quem deseja sobreviver nesse universo incerto.

Fonte: “Época”, 7 de junho de 2017.

RELACIONADOS

Deixe um comentário