Revista Época – Edição 449 – 25/12/2006 As economias de mercado são produtos em permanente evolução, como a linguagem e os costumes. Trata-se da maior engrenagem de inclusão social e criação de riquezas já descoberta pela humanidade. Seu bom funcionamento exige que prevaleça a lógica da prestação de serviços. É importante satisfazer o consumidor. Pode parecer injusto que, após dez anos de estudos de música clássica, um violinista ganhe menos que um jogador de futebol, mas a resposta a esse aparente paradoxo reflete o gosto popular. Sugiro ao leitor correr os olhos ao redor da sala em que se encontra e fazer uma reflexão. Seu relógio de pulso, suas roupas, a televisão, as cadeiras, um quadro, os livros e a própria revista que está lendo. Nada disso foi feito por você, e tudo foi comprado pelo fornecimento de apenas um serviço em que o leitor se especializou. Médico, advogado, professor, encanador, bombeiro, jornalista, economista, empregada doméstica são todos participantes do mais complexo organismo que segue evoluindo por divisão do trabalho ao longo de milênios. O funcionamento das economias de mercado foi descoberto pelo escocês Adam Smith, no século XVIII, inaugurando o conhecimento das ciências econômicas. O que possibilitou, por sua vez, não apenas um alucinante ritmo de acumulação de riqueza, mas a própria explosão demográfica da espécie humana, pela ruptura da maldição malthusiana. E a grande novidade do século XXI é a conversão em massa de bilhões de eurasianos do comunismo para as economias de mercado em busca de inclusão social. As economias de mercado são essencialmente mecanismos para a mobilização de recursos, instrumentos de coordenação de esforços produtivos. De um lado, temos os recursos econômicos: tecnologia, instalações industriais, mão-de-obra aperfeiçoada por educação e treinamento, organizações empresariais, instituições públicas e recursos naturais. A mobilização, a coordenação e o uso eficiente desses recursos pela lógica dos mercados produzem, por outro lado, uma fronteira de possibilidades de produção de bens e serviços. A invasão desse espaço por uma lógica de extorsão, baseada em poder político ou pressões de grupos de interesse, interrompe o mecanismo de criação de riqueza. Derruba a capacidade produtiva do país para bem abaixo das possibilidades permitidas em uma economia de mercado, por ineficiência, capacidade ociosa ou má alocação de recursos. É um desastre quando a extorsão começa a se tornar parte da lógica da vida em sociedade, na tentativa de usar o Estado para apropriação de fatias da renda nacional. Repare nos efeitos sociais incendiários: uma elite de servidores públicos do Poder Legislativo tenta aumentar seus vencimentos em 90%, diante da inflação de 3% ao ano, enquanto outra elite, a do Poder Judiciário, com vencimentos mensais em torno de R$ 24 mil, contesta a pretensão do Legislativo, mas reivindica para si novos aumentos e vantagens adicionais. Os sinais da nova lógica se irradiam. Um jovem da zona rural observa resultados mais rápidos filiando-se ao MST e invadindo terras em vez de cursar Agronomia para melhorar suas qualificações. Os sindicalistas acreditam que passeatas e manifestações, em vez de horas de trabalho e aperfeiçoamento profissional, sejam a chave para melhores remunerações. Empresários e grupos de interesse aproximam-se do Estado em busca de favores especiais. E, na semana passada, assistimos à vergonhosa disputa entre artistas e atletas por recursos de incentivos fiscais num país de miseráveis. Quando todos correm atrás do Estado em busca de recursos, ocorre um completo desvirtuamento da vida em sociedade. Em vez da prestação de serviços, predomina a lógica da extorsão.

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