A marca da boa política

A advertência é do presidente dos Estados Unidos aos alunos do ensino básico, em cerimônia de volta às aulas transmitida para todo o país: “Cada um de vocês tem algo a oferecer. A educação lhes dará a oportunidade de descobrir o quê. Não importa o que decida fazer de sua vida, você precisará de educação para fazê-lo. Quer ser um médico, um professor ou um policial? Quer ser uma enfermeira, um arquiteto, um advogado ou um militar? Você precisará de boa educação para qualquer uma dessas carreiras. Se você abandonar a escola, não encontrará bom emprego. Você precisa aprender, treinar e se esforçar muito. Bons pais, professores dedicados e melhores escolas ajudam, mas o fundamental é a responsabilidade de cada um de vocês por sua própria educação. Essa responsabilidade não é importante apenas para sua vida e seu futuro. Sua educação decidirá também o futuro do país.”

As ideias no discurso de Barack Obama configuram uma sociedade baseada na meritocracia. A contribuição especial que cada um tem a oferecer nesta sociedade do conhecimento. As oportunidades educacionais como chave para a descoberta do talento e o aperfeiçoamento das habilidades. A futura realização profissional dos indivíduos por meio de carreiras indissociáveis das qualificações adquiridas no sistema educacional. A evasão escolar como ameaça de futura exclusão social. A responsabilidade individual no desempenho escolar, na excelência profissional e até mesmo nos rumos do país. Afinal, uma dessas crianças será o presidente da República.

Trata-se de uma boa introdução ao funcionamento de uma Grande Sociedade Aberta. Em uma democracia representativa, poderes independentes, muito bem assessorados por especialistas, decidem de forma descentralizada em suas esferas de atuação. Em uma economia de mercado, da mesma forma, mecanismos descentralizados de coordenação dos recursos permitem o uso mais eficiente das habilidades, das informações e dos conhecimentos dispersos entre os indivíduos.

A boa política, portanto, são redes decisórias descentralizadas e bem informadas, com base em especialistas de excelência comprovada. Ao contrário de um processo decisório excessivamente centralizado e consequentemente desinformado, marca da degeneração política típica dos regimes totalitários.

A propósito, é impressionante o espaço ocupado pelo Poder Executivo na mídia brasileira. Importa menos se as matérias são favoráveis ou não ao governo. É o volume de notícias em si que assusta. As iniciativas, os eventos e o fluxo diário da vida social estão soterrados por essa herança maldita do regime militar, acentuada pela inapetência por reformas de uma socialdemocracia que reduziu a atuação do Congresso a uma feroz disputa pelo poder. É isso que empurra o presidente da República para decisões sobre todos os assuntos, esteja ou não bem informado a respeito.

(O Globo, 14/09/2009)

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