A Marilyn Monroe das grandes metrópoles

Mudança climática é um termo técnico que nos vem à mente para tentar explicar a tragédia provocada pelas chuvas no Rio de Janeiro. As expressões mais verdadeiras para tratar do ocorrido, no entanto, são falta de investimento e ausência de gestão preventiva. Muito piores que a tempestade tropical – ocasional e previsível – são a imprevisibilidade permanente e o caos gerencial dos poderes públicos que se tornaram marca registrada do castigado Estado do Rio.

Nós, cariocas, temos sido incapazes de conduzir obras infraestruturais compatíveis com o desafio de sermos uma cidade encravada entre montanhas, rios, lagoas e mar. Não temos Estado à altura de nossa beleza. Cidades como o Rio devem estar sempre preparadas para precipitações exorbitantes. O planejador urbano que trabalha apenas com a média mensal de chuvas convida o caos a visitar sua cidade. O bom-senso sugere que essa média deveria ser multiplicada por dois ou três para dimensionar bueiros e galerias pluviais, escadarias de águas nas encostas, piscinas de contenção e acomodação das enchentes nas várzeas. Onde estão esses adequados equipamentos urbanos? Não no Rio de Janeiro, a sofrida ex-capital federal e ex-Guanabara, ex-quase tudo de bom, que lhe foi sendo afanado ao longo das últimas décadas.

Nossa vontade coletiva foi esgarçada pelo esbulho federativo do Rio e pela conduta histriônica de lideranças arqueológicas. Não existe mais poesia nas águas de março. É um rio de dor, de famílias inteiras tragadas pela lama, cidadãos ilhados em seus carros e suas casas, gente que perde tudo depois de pagar tantos impostos. É também uma maré de protesto que nos povoa a mente quando percebemos a clara relação entre a tragédia natural e a omissão oficial, fruto da imprevidência das autoridades, quando não por descarada roubalheira das verbas endereçadas à contenção de encostas ou à drenagem pluvial.

O Rio é uma cidade linda, mas condenada pela torpeza dos que a ela juram um amor que não existe

Galerias pluviais dos tempos de Dom Pedro II ainda sustentam a drenagem em pontos críticos da cidade. Em Niterói, deixam construir em cima de lixos sanitários lançados em encosta! A omissão eleitoreira do poder público se soma à baixa estima da população, ao descuido pelo local onde mora com sua família. Tal me parece ser o recado mais gritante da tragédia que se abateu sobre minha cidade do coração. “Ame-a e conserte-a!” é o protesto da natureza ofendida com nosso próprio desamor coletivo. Quem ama não polui nem destrói. A cara do Rio é, contudo, marcada pelo traço do fatalismo, que se revela na aceitação passiva de quase tudo. Somos a Marilyn Monroe das grandes metrópoles mundiais, linda como ninguém, mas condenada pela torpeza dos que a ela afirmam um amor de fato inexistente.

A sina do Rio também é assunto de economia nacional. A imagem do Rio pesa sobre o país. Não basta prometer batucada e rebolado para os gringos na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. Desde sua indicação, o Rio tornou-se foco de atenção da mídia mundial, que quer saber por que Madri, Tóquio e Chicago foram preteridas. Erro de avaliação ou excesso de empolgação dos julgadores?

O Rio precisa dar a volta por cima. Ainda dá tempo. Mas não é só com mais verba do governo federal. É com mudança de mentalidade coletiva, que previna a ocupação indevida do solo, relocalizando quem estiver em risco. É com a coragem de titular a propriedade de quem detém posse pacífica e ordenar os investimentos urbanos por prioridade real, e não eleitoral. É, como disse há poucos dias o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, na Favela do Cantagalo, onde participávamos juntos numa ação afirmativa, a comunidade inteira “se levantar para defender a cidadania, pois segurança pública apenas começa, mas não termina, na ordem policial, pois se completa na organização da vida local, no registro das moradias, na conta de luz, no endereço certo, no atendimento rápido dos serviços públicos”. Ainda dá para evitarmos vexames em 2014 ou 2016.

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