A matemática de Mantega contra a inflação

A inflação brasileira, medida pelo IPCA (índice do IBGE tomado como referência pelo Banco Central), cravou 6,51% nos doze meses acumulados até abril último. Furou o teto da margem de tolerância, pois a meta é de 4,5%, com um perdão de dois pontos para baixo ou para cima.

Não furou nada, replicou o ministro, em entrevista no último dia 6. A norma que define a meta, explicou, não considera a segunda casa depois da vírgula. Ou seja, “tecnicamente”, segundo Mantega, o teto é de 6,5%, desprezando- se os “quebrados”.

Ocorre que 6,5 equivalem a 6,50, de modo que, “tecnicamente”, o valor de 6,51 é maior que 6,50. Logo, o teto furou. Mas, admitamos, a discussão é meio inútil — afinal, estamos falando de 0,01. E por isso mesmo o comentário do ministro é ainda mais estranho. Por que se arriscar a dizer uma bobagem matemática por tão pouco? Ainda mais considerando que conforme todas as previsões, inclusive do BC, a inflação anualizada vai passar dos 6,59%, aí sim estourando o teto da meta mesmo na matemática de Mantega.

Mas a outra observação do ministro, feita três dias antes, é mais grave. Disse ele que o IPCA de 6,3% (acumulado em doze meses até março) cairia para meros 4,73%, se excluídos os dois vilões, alimentos e combustíveis. Uma inflação normal, portanto. O problema estaria localizado em dois grupos de produtos, ambos sujeitos a pressões internacionais.

A conta ministerial está simplesmente errada, diz o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, em artigo publicado ontem na “Folha de S.Paulo”. Sua explicação: “A inflação, contudo, é uma média ponderada dos diferentes aumentos de preços. Se a inflação total ficou em 6,30%, a inflação de alimentos (peso aproximado de 15%) alcançou 8,76% e a inflação de combustíveis (peso 4,5%) chegou a 5,42%, então a média dos demais preços deve necessariamente ter aumentado 5,89%, bem mais do que os 4,73% estimados pela Fazenda.” Quer dizer, o ministro fez uma subtração direta quando deveria ter feito uma conta um pouco mais complicada.

É aquela história: precisa dar muita explicação, acaba falando o que não deve. O problema é que a cada dia aparece um vilão da inflação. Primeiro eram os alimentos. Depois, o etanol. Depois, roupas. Agora, os serviços. Mesmo sem ser ministro da Fazenda, dá para perceber que a inflação está espalhada e tem inúmeras causas — tudo a exigir ação mais enérgica do Banco Central e da própria Fazenda. Como não querem ou não sabem o que fazer mais, caímos naquelas explicações.

Lei de jerico

Vai ser assim: as calcinhas, os sutiãs e as cuecas comercializados no Brasil, aqui produzidos ou importados, terão uma etiqueta de alerta.

Nas calcinhas, a etiqueta recomendará o uso de camisinhas e dirá que a portadora (ou usuária?) deverá fazer exames de colo de útero. Nos sutiãs, claro, virá a recomendação de autoexame dos seios. E, nas cuecas, o alerta aconselhará exame de detecção do câncer de próstata.

Já é quase lei. O projeto com esse teor foi aprovado no Senado e na Comissão de Constituição de Justiça da Câmara. Se não houver recurso para votação em plenário, sobe direto para a mesa da presidente Dilma Rousseff.

Se a presidente não vetar, o Congresso terá produzido uma das leis mais idiotas dos últimos tempos.

Claro que é bom alertar para aqueles exames de prevenção. Mas não tornando obrigatória uma etiqueta em todas aquelas peças, produzidas ou importadas.

Aprovada a lei, o governo terá 180 dias para regulamentar as etiquetas. Festa para os burocratas. Será preciso definir os dizeres. Conforme a quantidade de palavras, vai o tamanho da etiqueta. As mensagens serão relativamente longas para passar todo o alerta legal.

Vai precisar de uma etiqueta de uns 5cm por 10cm, pois a letra não pode ser muito pequena. (E como fazer com as etiquetas em braile?)

Mais: a etiqueta vai onde, na frente ou atrás? Por dentro ou por fora? Em muitos casos, considerando modelos mais sensuais, peças de renda, a etiqueta será maior que a própria calcinha. Vai estragar todo o design. E o momento.

Já imaginaram? O rapaz e a moça se casam, vão para a primeira noite, champanhe, começam a tirar a roupa e o que veem? Use camisinha, cuidado com o câncer de útero e da próstata, já apalpou o seio? (Ela, não você.)

Do ponto de vista econômico, é custo Brasil, financeiro e burocrático. Diz a lei que se a etiqueta, mesmo em peças importadas, não estiver nos termos da lei, o fiscal (fiscal de calcinhas e cuecas, uma nova carreira de Estado) pode fechar a loja, a fábrica e a importadora.

Tudo inútil, pois como disseram ouvintes da CBN, é claro que a primeira coisa que a mulher fará será arrancar a etiqueta.

Fonte: O Globo, 12/05/2011

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1 comment

  1. Humberto

    Eu tinha um comentário a fazer sobre a questão da inflação, mas depois de ler a parte dos avisos nos sutiãs e calcinhas desisti completamente… Um país assim não tem como dar certo, não merece nem o meu parco comentário…