A moeda e o tecido social

Os bancos centrais dos principais países desenvolvidos parecem disputar quem consegue anunciar maiores estímulos em menos tempo. O problema maior, causado pelo excesso de endividamento do setor privado e dos governos, não vai ser solucionado com mais dívida, mas ninguém deseja enfrentar os sofrimentos dos ajustes necessários. A ilusão monetária surge como a esperança de que é possível diluir tais ajustes no tempo. As dívidas seriam corroídas pela inflação mais alta. Os credores seriam forçados a transferir renda para os devedores.

Muitos keynesianos aplaudem os afrouxamentos monetários. Paul Krugman chega a acusar o Fed de ser muito tímido! Para Krugman, até os estragos causados pelo furacão Sandy são vistos como algo positivo para a economia, especialmente se o banco central imprimir mais para financiar os gastos de reconstrução. Mas esta não era a postura do próprio Keynes. Em seu livro “As Consequências Econômicas da Paz”, escrito em 1919 para criticar as punições impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes, ele alerta de forma profética:

“Atribuiu-se a Lênin a declaração de que a melhor maneira de destruir o sistema capitalista é destruindo a moeda. Com um processo contínuo de inflação os governos podem confiscar uma parte importante da riqueza dos seus cidadãos, secreta e furtivamente. Com esse método eles não só confiscam mas o fazem arbitrariamente; é um processo que empobrece a muitos mas na verdade enriquece uns poucos. Esse deslocamento arbitrário da riqueza fere não só a segurança mas a confiança na equidade da distribuição de renda. Aqueles a quem o sistema traz vantagens além do que merecem, e mesmo do que esperam ou desejam, passam a ser ‘aproveitadores’ – objeto de ódio da burguesia, que a inflação empobreceu, não menos do que o proletariado. À medida que a inflação se desenvolve, e o valor da moeda flutua de mês a mês, as relações permanentes entre credores e devedores, fundamento do capitalismo, se desorganizam até quase perderem o sentido. E o processo de aquisição de valor degenera em uma loteria de azar.”

Keynes ainda acrescenta:

“Não há dúvida de que Lênin tinha razão. Não há meio mais seguro e mais sutil de subverter a base da sociedade do que corromper a sua moeda – processo que empenha todas as forças ocultas da economia na sua destruição, de modo tal que só uma pessoa em cada milhão consegue diagnosticar.”

Lord Keynes merece muitas críticas dos liberais. Mas ele, perto de seus herdeiros ideológicos que falam hoje em seu nome, parece até um liberal defensor da austeridade. Ele sabia como a impressão desenfreada de moeda representava o caminho mais rápido para a destruição da economia e, com isso, do próprio tecido social responsável pela manutenção do modelo capitalista. Este, para funcionar, precisa de confiança, pois interliga milhões de agentes de forma impessoal. O símbolo desta confiança é justamente a moeda sólida.

Quando esta é deliberadamente desvalorizada, com a expansão descontrolada do balanço do banco central, o principal impacto negativo é na moral. As pessoas perdem os valores, os beneficiados por esta política inflacionária se tornam alvo de revolta popular (Wall Street deveria tomar mais cuidado com movimentos como “Ocupem Wall Street”), a concentração de riqueza aumenta de maneira artificial, e todos são instigados a especular no curto prazo para obter algum sustento extra. A eutanásia do rentier é um tiro nos poupadores, que têm parte de sua riqueza confiscada pelo governo.

Os bancos centrais dos principais países desenvolvidos parecem disputar quem consegue anunciar maiores estímulos em menos tempo

No afã de inflar o preço dos ativos e estimular o consumo no curto prazo, estas políticas acabam gerando efeito contrário: os indivíduos percebem que terão de poupar ainda mais para desfrutar da aposentadoria, agora sem retorno sobre o capital acumulado, e precisam então reduzir seus gastos correntes. Quando o capital não tem mais valor no tempo, isso significa que é preciso acumular muito mais dinheiro para viver da poupança depois. Quando foi que o mundo endoidou de vez a ponto de acreditar que a impressão de moeda gera prosperidade efetiva?

Vários indivíduos, desesperados, passam a especular em ativos improdutivos, como imóveis e ouro, em busca de rentabilidade extra. O afrouxamento monetário dos bancos centrais cria uma sociedade de day traders, de especuladores ligados nos preços dos ativos a cada momento, à espera da nova rodada de estímulos, tal como viciados vidrados na expectativa da próxima rodada de droga.

A História está repleta de casos que ilustram as desgraças dessas medidas inflacionárias. Um dos importantes fatores que levaram à queda do império romano foi justamente a desvalorização sistemática de sua moeda pelas autoridades. Mais recentemente, a República de Weimar assombrou o mundo com sua hiperinflação, uma das principais causas da ascensão de Hitler ao poder.

Em When Money Dies, Adam Fergusson relata passo a passo a destruição da moeda alemã e como isso impactou na degradação moral do país. O mais impressionante era o desejo de negar os fatos. Mesmo após a expansão descontrolada da quantidade de moeda em circulação, muita gente ainda culpava bodes expiatórios pelo aumento no custo de vida. Os alemães sofreram tanto por esta ignorância que aprenderam a lição, criando o banco central mais ortodoxo e disciplinado do mundo. O Bundesbank foi um pilar fundamental da reconstrução alemã no pós-guerra, e ainda hoje desfruta de excelente reputação.

O mundo deveria levar o alerta a sério, portanto, quando lideranças alemãs começam a falar até em trazer seu ouro estocado nos Estados Unidos de volta ao país. Estamos diante de um momento extremamente perigoso, em escala mundial. Banqueiros centrais partem para experimentos irresponsáveis que podem abalar as principais estruturas do capitalismo. Com a moeda não se brinca impunemente. Ela é o elo que serve de argamassa para o tecido social. Se as pessoas perderem a confiança nela, então o caos pode se instalar em boa parte do mundo.

Fonte: OrdemLivre.org

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1 comment

  1. Cesar Ramos

    Mais uma excelente abordagem do Economista Rodrigo Constantino. A espetacular performance do Eua de Roosevelt, consubstanciado com os extraordinários desenvolvimentos do fascismo e do nazismo ainda empolgam os acadêmicos economistas, e de resto seus patrões. Não lhes interessa que os players de ’30 fossem dopados, e que no longo prazo acabam se estatelando. Pois não houve o longo prazo. Em dois lustros estavam todos mortos.
    O Eua somente se livrou de uma crise ainda maior do que a de 29 graças aos japoneses, que lhe obrigaram a encerrar o período da aventura keynesiana com os despojos dos alemães, italianos, até franceses, e dos próprios japoneses.
    A menos que alguém esteja mirando igual futuro, prudente não almejar tal metafísica.