A nova era das bruxas de Salém

“Prende o canalha! Mata!” A audiência de custódia do ex-ministro Geddel Vieira Lima ia passando, na internet, e a turma mandando ver, na barra de comentários. Ok, o ex-ministro não é um tipo propriamente popular e há acusações pesadas contra ele. Cabe à Justiça resolver. O que me impressionava era a coleção de palavrões e a banalização da palavra “morte”. Fosse com Lula ou Aécio, imagino, a coisa não seria muito diferente. A ira santa da internet não parece obedecer a partidos ou a ideologias.

Lia aqueles comentários e me lembrava da série “The Tudors”. A cada vez que algum infeliz era decapitado, a mando do rei, uma pequena turba se reunia em frente ao patíbulo e gritava coisas na mesma linha: “Morte, patife! Acabem logo com isso!” Não digo que seja a mesma coisa. No século XV, o sujeito estava ali em carne e osso, levando uma machadada no pescoço. Nos dias que correm tudo é mais civilizado. Há um juiz comandando a cena e o pior que pode acontecer é ele acabar em um presídio em Bangu. A era das bruxas de Salém já vai longe. Mas há algo incomodamente comum entre essas situações que parece atravessar o tempo.

A perversidade na internet não é apenas um tema pitoresco. Uma pesquisa publicada recentemente pelo Pew Research Center mostra que 41% do público americano já sofreu algum tipo de assédio ou agressão no mundo digital; 18% sofreram o que consideram situações graves envolvendo perseguição, ameaças físicas ou danos sérios de imagem. As razões? Dos entrevistados, 14% vêm da política, 9% da aparência física, 8% do preconceito racial. Há muita subjetividade nisso e é possível imaginar que boa parte das ocorrências tenha pouca relevância. Mas outra parte não. Os dados mostram que triplicaram, nas últimas duas décadas, os suicídios entre meninas adolescentes, em boa medida devido ao bullying digital. Há um traço sombrio no universo digital que parece não respeitar idade, sexo ou qualquer fragilidade humana.

É sedutor imaginar que a crueldade, no mundo digital, atenda a uma lógica determinada ou venha de um grupo específico de pessoas. Venha da “direita” ou da “esquerda”, por exemplo, ou que surja de grupos racistas, sexistas ou portadores de algum tipo de psicopatia. As evidências mostram o contrário. A agressividade parte de gente perfeitamente razoável, mas que no contexto digital muda de pele. Me faz lembrar do julgamento de Adolf Eichmann e o espanto de Hannah Arendt ao descobrir que o carrasco nazista não passava de um burocrata perfeitamente “normal”.

Teria a internet um “elemento Eichmann”? Estaríamos às voltas com uma multidão de gente bacana que subitamente se torna dogmática no mundo digital? Tudo isso é perfeitamente previsível ou estamos com um problema? Não arrisco uma resposta definitiva, mas intuo que isso explique, em boa medida, o fenômeno da tribalização da internet. Muita gente concluiu que a arena caótica das redes sociais não funciona para gerar diálogos que valem a pena. É possível que tenham razão.

Uma explicação para o fenômeno foi apresentada pela neurocientista inglesa Susan Greenfield. Seu ponto foi demonstrar que o isolamento digital produz uma redução da empatia entre as pessoas. “Quando ficamos muito tempo no computador, somos todos autistas”, diz Greenfield. “Não vemos a pessoa ficar vermelha, engolir em seco, ficar nervosa.” Daí a conclusão: “Quanto mais engajamento no ciberespaço, maior a redução da empatia”.

A tese põe em xeque muitas das esperanças que se alimentaram, no passado recente, sobre as possibilidades da “democracia digital”. O debate público tende a funcionar bem quando se pensa em comunidades, em um cenário de múltiplas organizações voluntárias e grupos de pessoas capazes de tomar iniciativas e gerar consensos. Algo que Alexis de Tocqueville enfatizou em seu clássico “A democracia na América”. A democracia demandava uma rede de corpos intermediários. Espaços comuns de diálogo e aprendizado entre os cidadãos. No mundo digital, a tendência parece oposta: pessoas mais ou menos solitárias praticando a velha guerra de posições. Reproduzindo, sem perceber, os piores vícios dos políticos furiosos de quem elas tanto desejam se diferenciar.

O economista americano Anthony Downs ressaltou um problema congênito nas democracias: o voto das pessoas não vale muita coisa, em uma eleição, e por isso elas têm pouco incentivo para buscar informação e agir com responsabilidade. Mesmo que você morasse em Araguainha, no interior de Mato Grosso, o menor colégio eleitoral do Brasil, seu voto valeria quase nada. Algo próximo a 0,1% do total. As pessoas votam porque são obrigadas, por solidariedade a um candidato, por paixão política ou mesmo por espírito público. Será sempre mais racional não se preocupar muito com a política. Opinar e votar como um alienado. E é basicamente isso que as pessoas fazem.

A novidade, na era digital, é que uma incrível multidão de pessoas passou, de uma hora para outra, a exercitar ativamente a sua alienação. O alienado passivo dos tempos pré-internet era um tipo calado. Ele observava à distância as coisas públicas e ficava na dele. Era essencialmente alguém que não sabia. O alienado ativo é seu oposto: ele sabe de tudo. É o sabe-tudo das redes sociais. Sabe mais de Direito que um ministro do Supremo, mais de economia que um ph.D. em Harvard e, por óbvio, mais sobre futebol que o Tite. É um tipo até engraçado, reconheço. Talvez seu ruído faça melhor à democracia que o antigo silêncio. Não sei. Por ora não consigo enxergar muita virtude nisso tudo.

Percepção mais otimista tive do sociólogo Richard Sennett e sua ideia de uma “nova diplomacia” no universo digital. “Não há outra saída”, me disse ele, em uma agradável conversa em seu apartamento, no Village, em Nova York. “As pessoas vão bater com a cabeça na parede até aprender. Aprenderão a usar o modo subjuntivo. O ‘quem sabe’ ou o ‘talvez fosse melhor’, e com isso abrirão espaços para o diálogo.” Caso contrário a conversa de surdos prosseguirá. Me despedi do professor um tanto cético e fui caminhar no High Line, com aquela ideia na cabeça.

Fonte: “Época”, 30/07/2017.

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