Mudar, inovar, alterar padrões de comportamento tradicionais são apelos frequentes do discurso eleitoral. Mudança foi o termo com que o presidente Luiz Inácio iniciou o discurso de posse em janeiro de 2003. O conceito embute a promessa de nova visão de governo, com expansão de benefícios, geração de oportunidades, combate à corrupção, adoção de métodos racionais e critérios éticos na administração. Dessa forma, a modernização de costumes serve como escopo para alavancar candidaturas em todas as siglas. Por isso, quando o conceito de mudança é substituído pelo de continuidade, é porque algo bastante forte ocorreu no sistema de valoração social. Pois bem, o verbo mudar está sendo substituído, no pleito deste ano, pelo verbo continuar. Em 16 Estados, segundo as pesquisas, candidatos que simbolizam a continuidade são os favoritos, enquanto em seis a disputa mostra empate técnico. Oposicionistas, que defendem a mudança, lideram em apenas cinco . E é bem provável que a contagem governista aumente até outubro. A mesma sinalização ocorre no pleito federal, com o favoritismo da candidata que representa a situação.

O que explica a onda de continuidade? Em primeiro lugar, satisfação social. O que, na linguagem dos esportes, corresponderia à pergunta: por que mudar o que está dando certo? A hipótese esconde, porém, particularidades. O processo de decisão, como se pode intuir, privilegia alguns aspectos em detrimento de outros. Nem sempre problemas graves que poderiam afetar a decisão do eleitor são considerados. Basta vermos o balanço da crise de 2009, que expandiu em 1,3 milhão o número de desempregados, ou ainda situações alarmantes como a precária infraestrutura de saneamento básico – cerca de 40% dos domicílios continuam sem dispor de rede coletora ou fossa séptica. O que, então, justifica o favoritismo de candidatos que representam o atual estado de coisas? Resposta: a prevalência do fator econômico sobre outros. Apesar da deterioração de serviços públicos essenciais, de acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, a renda dos 40% mais pobres cresceu 3,15% em 2009, ante 1,09% dos 10% brasileiros mais ricos. A desigualdade social diminui. Os programas de distribuição de renda tornaram a pirâmide social menos triangular e mais retangular, com o alargamento do meio. E as classes médias assumem o primeiro lugar na composição social.

O favoritismo dos candidatos situacionistas mostra que o voto no País segue três caminhos.

O mais largo é o do bem-estar, que começa na boca do estômago. Nesse caso, o manto macroeconômico que cobre os eleitores de todas as classes é o primeiro fator a impulsionar vontades. O sistema cognitivo de um eleitor de Roraima ou de São Paulo é acionado, em primeiro lugar, pela situação do País. Se a renda lhe proporcionou condição para comprar uma geladeira nova (garantia de estômago satisfeito), um fogão, um carro (mesmo usado), dar entrada para adquirir uma casa ou mesmo reformar a velha habitação, o eleitor responderá com o voto na pessoa que identifica como a mais capaz de propiciar benefícios e recompensas. A mesma engenharia de processamento ocorre na avaliação de candidatos estaduais. Perfis situacionistas no ranking das preferências representam alto grau de aprovação das gestões. A recíproca é verdadeira: a desaprovação popular das administrações estaduais – caso do Rio Grande do Sul ou do Pará, por exemplo – favorece candidaturas oposicionistas. Ou seja, a dose de satisfação explica o voto do eleitor tanto nos candidatos à Presidência da República como aos governos de Estado, sejam eles de partidos ou coligações diferentes.

A segunda trilha do voto é a que leva ao coração. Essa corrente agrega as emoções das massas e de conglomerados que costumam votar de acordo com critérios de amizade, proximidade e admiração. Nessa esfera circulam os candidatos mais populares, as figuras conhecidas, os ídolos da plebe. Portanto, nos Estados, a par da boa avaliação das administrações, o eleitorado leva em conta o grau de intimidade e conhecimento de perfis, sob o pano de fundo de disputas tradicionais entre lideranças, partidos e alas. Quando o primeiro caminho (satisfação) se cruza com o segundo (emoção), estão asseguradas as condições para o sucesso de contendores.

Já a terceira via do voto abriga as decisões de cunho racional. Nela a decisão do eleitor, mesmo considerando o fator econômico e a avaliação das administrações estaduais, insere outros componentes. O voto racional opera com uma equação entre partidos, blocos e perfis, tendo como parâmetro rígidos critérios, como proposições de ética e moral, compromissos públicos, envolvimento de pessoas e grupos em escândalos, reação a atitudes. Esses núcleos geralmente se localizam no centro da pirâmide, integrando as classes médias. Trata-se da trilha mais estreita do voto, apesar de seus componentes soprarem o eco mais forte na tuba de ressonância da opinião pública.

As três rotas do voto, com seus caminhantes, explicam a atual composição das candidaturas e seus potenciais. Vale lembrar que o estado de satisfação geral é cíclico. Os efeitos da onda continuísta que deverá inundar os Estados lembra o tsunami de 1986, quando o presidente de então, José Sarney, adotou o cruzado como moeda em substituição ao cruzeiro, congelou preços por um ano e reajustou salários segundo a média dos seis meses anteriores. O confisco do boi no pasto e os “fiscais de preços” deram o arremate da era do agrado ao estômago. O PMDB elegeu 22 governadores, deixando ao PFL apenas o governo de Sergipe, conquistou 38 das 49 vagas que eram disputadas para o Senado e 260 das 487 cadeiras para a Câmara.

O lema deste ano pode, até, ser este: a esperança de continuar venceu a vontade de mudar.

“O Estado de S. Paulo” – 12/09/2010

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