“Afinal, devo tirar ou não o meu dinheiro da poupança?” Essa pergunta já me foi feita diversas vezes, e reflete a desconfiança do brasileiro nas ações do governo, tão acostumado a rasgar contratos, mesmo com pequenos poupadores. É fato, o governo vai mexer nas regras da poupança e a rentabilidade vai cair. A mensagem é curta, mas o presidente Lula não quis dizer isso claramente, o que deu margem para desconfiança. Se fosse sincero, diria claramente que a renda da poupança vai mesmo cair, mas no fundo por um bom motivo: é um sintoma de um País com estabilidade.

Nos anos 80, o Brasil conseguiu manter a sua moeda própria ainda funcionando (e não dolarizada na prática) por causa do mecanismo da correção monetária. O dinheiro todo dia perdia valor, exceto para aqueles que tinham acesso ao sistema bancário e deixavam o dinheiro aplicado no overnight. Com a correção, também era possível fechar contratos, pois sobre o valor nominal existiam os inúmeros índices que corrigiam o que o papel moeda perdia todo dia.

Com o Plano Real, os mecanismos de indexação foram quase todos eliminados. Mas, para conter um excesso de consumo – que poderia provocar inflação de demanda – os juros altos foram usados para manter a estabilidade recém conquistada. Além disso, a remuneração elevada em títulos do governo ajudava na âncora cambial – a captação de dólares de fora para manter o real valorizado. Em 1999, quando aconteceu a maxidesvalorização, os juros chegaram a 45% ao ano, com o objetivo de evitar fuga de capitais e repasse da desvalorização aos preços.

Em nível menor, mas ainda calibrados de forma elevada, os juros seguiram dessa forma nos últimos dez anos. Mas, agora, a tendência é de queda acentuada e a última decisão do Copom determinou a taxa Selic em 10,25%, com previsão de encerrar o ano em 9%. Comparativamente, a poupança começou a ter rendimento elevado e se vai cair é porque o restante da economia está com juros em queda e inflação controlada.

Inflação baixa e juros civilizados implicarão em maior crescimento econômico. Poderia ter sido mais cedo? Muito provavelmente, principalmente se a parte fiscal, a dos gastos do governo, tivesse colaborado.

Juros altos não são um fim em si mesmo, mas um instrumento para perseguir outro objetivo, no caso, inflação baixa. Hoje, é possível dispensar essa muleta, mas não dá para esquecer que só se andou até aqui por causa dela. Disse o sir Isaac Newton: “Se vi mais longe, foi porque estava sobre os ombros de gigantes.” Mesmo um gênio (ou, por isso mesmo) reconhecia que o conhecimento é cumulativo, que para avançar é preciso se apoiar nas milhares de descobertas e instrumentos que o precederam. Os verdadeiramente grandes são sinceros. É um ganho para o país poder agora reduzir a rentabilidade da poupança se isso representar acesso a crédito mais barato, especialmente o imobiliário.

(Publicado em 10.05.2009 no Jornal do Comércio)

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