A educação é o mais importante recurso econômico da sociedade do conhecimento. A capacidade de criação de riquezas por indivíduos, empresas e nações depende da qualidade de seu capital humano. As oportunidades de emprego, a produtividade da mão-de-obra, a absorção de novas tecnologias, a distribuição de renda e a qualidade de vida em uma sociedade dependem diretamente dos investimentos em educação. Também nessa questão fomos prisioneiros de falsos dilemas. No ensino superior, porta de acesso a melhores salários no mercado de trabalho, o diagnóstico usual e equivocado indicava dois paradigmas como únicas alternativas. De um lado, as universidades públicas, com boa qualidade de ensino, mas financeiramente esfaceladas. De outro lado, as fábricas de diploma, entidades privadas e isentas de impostos, fornecendo ensino de baixa qualidade. As primeiras em permanente estado de greve; as últimas, funcionando de madrugada e aos sábados em cursos caça-níqueis. A menor ênfase das políticas públicas nos ensinos fundamental e médio teria, por sua vez, criado uma imagem exatamente inversa neste segmento educacional: grandes redes privadas de boa qualidade e alcance nacional contrastando com a situação precária das escolas públicas estaduais e municipais. A combinação desses dois cenários teria transformado o sistema educacional brasileiro numa verdadeira fábrica de desigualdades. Os jovens das classes média e alta, trilhando cursos secundários privados, conquistariam as vagas das universidades públicas, gratuitas e de melhor qualidade, enquanto os jovens pobres teriam de pagar por pior educação nas universidades privadas. Um algoritmo de perpetuação de desigualdades econômicas a partir de uma desigualdade de oportunidades educacionais. Essa simplificação do panorama educacional brasileiro se encontra bombardeada por formidáveis choques sistêmicos. O primeiro é a metamorfose da antiga pirâmide etária em um losango, por forças demográficas convencionais. A crescente alocação de recursos públicos para o ensino fundamental é o segundo choque, praticamente universalizando o acesso à rede básica pública. Resultante dos dois primeiros (a redução do ritmo de crescimento da demanda por ensino fundamental, pelo efeito demográfico, e o aumento da oferta pública), o terceiro choque é o deslocamento das grandes redes privadas rumo ao segmento do ensino superior. Anteriormente focadas nos ensinos fundamental e médio, essas redes tentam ingressar no curso superior junto com seus alunos. A efervescência do ensino superior atrai os investimentos de grupos estrangeiros, constituindo o quarto choque no sistema educacional brasileiro. O quinto choque, efeito colateral da internacionalização, é o tecnológico. Os grupos estrangeiros, com negócios movidos por orçamentos globalizados, trazem tecnologias de informação e conteúdo digitalizado para as salas de aula no país. O sexto choque é o crescimento explosivo do segmento de educação continuada. Isso tudo coloca um desafio para os empreendedores educacionais brasileiros conhecido pelos biólogos evolucionistas como um “movimento forçado” no espaço genético: o esforço de adaptação, a luta pela sobrevivência, empurrando os grupos para a consolidação de um setor que abrange aproximadamente 14% do PIB, mais que os setores elétrico, de petróleo e de telecomunicação somados. Desde o século V a.C., em Atenas, os métodos de transmissão do conhecimento de professores para alunos são praticamente os mesmos, transformando todos os processos de produção. Agora, 25 séculos depois, os próprios métodos se transformarão. A próxima fronteira da sociedade do conhecimento é a associação entre as novas tecnologias e a transmissão do conhecimento, redesenhando a nova indústria educacional.

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