O Globo, 04 de junho de 2007

A aterrissagem suave da economia dos Estados Unidos torna possível a também suave desaceleração da economia mundial. A taxa de crescimento do PIB global está recuando de um patamar acima dos 4%, em que permaneceu nos últimos quatro anos, para algo em torno dos 3,3% em 2007. As economias emergentes participam também da desaceleração global, com uma taxa de crescimento recuando de 7,3% em 2006 para 6,7% neste ano.

Destaca-se a economia brasileira nesse quadro exatamente pela reaceleração de sua dinâmica de crescimento, que poderá atingir até 4,5% em 2007, principalmente com base na ampliação de seu mercado interno. O aumento do crédito doméstico, com juros mais baixos e prazos mais longos, a geração de empregos e o aumento da massa salarial estão provocando uma formidável ampliação do consumo interno. As vendas de móveis e eletrodomésticos, novos veículos, materiais de construção e artigos de uso pessoal estão excedendo as previsões para o primeiro quadrimestre. Alguns setores registram crescimento acima dos 20% em comparação com 2006.

O desaquecimento moderado da economia global permite a sustentação dos preços das principais commodities, produzidas por países emergentes, em um “trading range”, uma confortável faixa de oscilação do ponto de vista de suas contas externas. A preservação do superávit comercial em torno de US$ 40 bilhões, a melhor colocação do país no ranking das agências de classificação de riscos e a perspectiva de recuperação de uma dinâmica interna de crescimento resultam numa enxurrada de dólares — empurrando para cima o nível de reservas internacionais (US$ 130 bilhões) e para baixo a cotação do dólar (R$ 1,90).

Sob a perspectiva do equilíbrio externo, isto é, considerando apenas o balanço de pagamentos, seria natural o aprofundamento da atual mecânica provocada pelo maior ingresso de dólares: maior acumulação de reservas, redução do prêmio de risco, desabamento dos juros internos e afundamento da cotação do dólar. Seria concebível vislumbrar o Brasil em 2008 com reservas de US$ 200 bilhões, crescimento de 5% ao ano, inflação em torno dos 3,5% e taxa de juros de 7,5%, produzindo ainda assim um juro real extremamente elevado por padrões mundiais.

Mas, como na clássica anedota futebolística atribuída ao ingênuo Garrincha, só faltou combinar com o adversário. Que no caso é, surpreenda-se o leitor, o próprio governo brasileiro. Pois, sob a perspectiva do equilíbrio interno, a expansão ininterrupta dos gastos públicos é incompatível com esta vislumbrada e desejável “situação asiática”. A taxa nominal de juros em torno de 7,5%, que seria hoje inteiramente tolerável sob a óptica das contas externas, seria excessivamente baixa para garantir uma taxa de inflação de 3,5% em 2008 — pois a ampliação do consumo e dos investimentos privados exigiria uma correspondente contenção dos gastos públicos. Que, se ocorresse, permitiria ao BC derrubar os juros ainda mais rapidamente que o 0,5 ponto percentual esperado para esta semana, disparando as críticas de sempre, de que a queda poderia ser maior.

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