O  filósofo Denis Rosenfield, no excelente artigo “Democracia  totalitária” colocou para os  brasileiros um belo tema para meditação. No texto, o filósofo gaúcho  compara o que chama de Democracia Totalitária, tomando como exemplo a  Venezuela, com a sua forma tradicional, a Democracia Representativa ou  Constitucional. Esta última forma é o ideal de democracia que as pessoas  sensatas almejam, ao menos como suposto. O que se vê atualmente no mundo,  todavia, especialmente na América Latina, é a tendência de líderes  carismáticos se apossarem do poder e tender a nele se perpetuar, fazendo  do voto plebiscitário uma caricatura de democracia, fato que é a expressão  da sua própria corrupção. Chávez copia o roteiro do que foi a ascensão de  Hitler ao poder e muita gente parece querer imitá-lo.     Rosenfield também registra a  sua estranheza pelo fato de que houve uma unânime condenação ao movimento  cívico-militar em Honduras, que protegeu sua democracia do demagogo que lá  queria implantar os métodos bolivarianos. Esses mesmos países não têm uma  palavra de reparo ao que se passa na Venezuela. O silêncio do conjunto das  nações em relação a Chávez é mais que suspeito, é cúmplice. Como  explicá-lo? Mesmo a América de Barack Obama parece ter se curvado ao  totalitarismo caudilhesco do venezuelano.   A  questão substantiva é: como uma democracia “normal” pode se transformar na  sua caricatura totalitária? O que explica a metamorfose? Existem formas  híbridas, de transição? Correrá perigo a democracia no mundo, como de fato  correu nos anos Trinta do século passado?   Não  se pode dizer que basta alguém querer ser demagogo, subir em um banquinho  diante das câmaras de TV e sair a pregar sandices para se eleger. Poderá  até fazê-lo, mas se a sociedade para quem pregar estiver saudável, seu  discurso cairá no vazio. Dois atores são relevantes nesse estágio em que a  sociedade ainda está sã: o povo, pelo voto, rejeita o demagogo e, quanto  este tenta um atalho, a elite também o rejeita,  como vimos agora em Honduras. Se, no tempo certo, a Venezuela tivesse  feito algo parecido o nosso vizinho do Norte não estaria padecendo agora  do mal político que sofre, em larga  escala.   Aqui  cabe recordar o cirúrgico diagnóstico de Denis Rosenfield: “A democracia totalitária volta-se contra os direitos individuais,  contra os direitos das pessoas de não se dedicarem aos assuntos políticos,  de se contentarem com seus afazeres próprios. Ela se volta contra as  instituições por estas interporem um limite ao seu desregramento. Ela se  volta contra a propriedade privada tanto no sentido material, de bens,  quanto imaterial, de liberdade de escolha. Ela se volta contra todo aquele  que reclame pela liberdade. Eis a questão com que nos defrontamos na  América Latina. A clareza dos conceitos é uma condição da verdadeira  democracia.” O democratismo é deletério e destrutivo e é o portador de  grandes sofrimentos para aqueles que estão sob seu  jugo.   Uma discussão teória mais profunda teria que ser feita, a fim de  demonstrar que esse casamento da filosofia política de Thomas Hobbes com  Rousseau, que é a Democracia Totalitária, vive latente nas democracias  liberais. Os fundamentos de ambas as formas, sua antropologia, são os  mesmos. Os abalos sísmicos que as democracias têm sofrido ao longo do  tempo têm sua causa nesses fundamentos comuns de ambas as formas de  governo. Não é um acidente de percurso, é acontecimento previsível, o  flerte com o totalitarismo.   Eu entendo que há também as formas intermediárias. Veja-se, por  exemplo, a social-democracia européia. Ali, com a taxação consumindo para  mais de 40% do PIB e com a regulação da vida privada chegando ao ponto da  asfixia, há muito deixou-se de ter uma democracia liberal clássica. Talvez  o profundo sofrimento causado pelas Grandes Guerras em solo europeu tenha  criado anti-corpos suficientes para segurar ainda os demagogos mais  radicais. No entando, com essa estatização progresssiva e continuada de  toda a vida privada, não se pode dizer que os valores da liberdade estão  sendo cultivados. Ali há um híbrido entre socialismo e economia de mercado  e nenhum governante pode chegar ao poder se não se comprometer com a  irracional e injusta ordem mantida pela social-democracia. A instituição  da propriedade privada ficou prejudicada, seja pelo excesso de taxação,  seja pelo excesso de regulação.   A eleição de Barack Obama nos EUA, por seu lado, mostra que o  mesmo processo se passa na América. Na verdade, não vem de hoje, vem desde  o início do século XX, mas a fortuna daquele país permitiu que a expansão  continuada do Estado fosse feita de forma mais vagarosa. A eclosão da  atual crise econômica, juntamente com a eleição do intervencionista Obama,  pode acelerar o processo no rumo do socialismo nas terras do Tio Sam. Os  inúmeros bailouts, a tentativia de estatização de todo o sitema de saúde e  a consequente expansão desenfreada da dívida pública coloca sérias dúvidas  sobre a trajetória salutar da economia, com seus inevitáveis reflexos  políticos. Os EUA podem, a qualquer momento, deixar de ser os emissores da  moeda de pagamento mundial. A atual recessão pode se arrastar e o  desemprego instalado, já altíssimo, não tem data para ser superado. Temos,  portanto, um terreno semeado para que aventureiros demagógicos possam vir  a ser ouvidos. Resta saber como a sua elite reagiria diante de uma  situação hipotética dessas.    Cabe a pergunta: será a social-democracia a institucionalização da  demagogia? Do roubo? Parece claro que, para alcançar os mesmos objetivos a  social-democracia dispensa o demagogo caricato.   O Brasil também está em processo de transição. Por muito pouco  Lula não alcançou o terceiro mandato e tem fortes condições para fazer o  sucessor. Durante seus dois mandatos o sistema jurídico sofreu forte  transformação, no rumo do socialismo. Aqui, como na Europa, ninguém se  elege se não fizer profissão de fé no socialismo, na manutenção dos  privilégios e de fé pública contra a inciativa privada. Nenhum nome da  chamada direita política teria  chances numa eleição majoritária. Não por acaso o grande garantidor de  Cháves no poder tem sido Lula. A identificação política dos dois líderes  parece evidente. No Brasil, ao contrário dos EUA, as instituições são mais  vuneráveis ao aventureirismo político, colocando uma grande interrogação  para o futuro imediato.   Meu ponto é que a desordem política, seguindo a linha de Eric  Voegelin, não deriva de fatores sazonais, como a crise econômica. Nem  mesmo coloco relevo no trabalho diurtuno dos subversivos que apregoam as  virtudes do socialismo, na forma proposta por Antonio Grasmsci. Gente  adulta e bem formada não daria ouvidos a essa deformação demagógica do  processo político. Em última análise, temos que buscar a causa na  decadência dos valores espirituais, que são o fundamento último da alma. A  descristianização do Ocidente, juntamente com o surgimento do ateísmo  militante, em ambos os hemisférios, é que provocaram as rachaduras que  possibilitaram o crescimento da tal Democracia Totalitária. Se esta é a  causa, outro não poderá ser o remédio: é necessário retormar a tradição,  às raízes greco-judaico-cristãs. É preciso colocar novamente os valores  maiores de volta aos centros de decisão. Estamos muito longe disso. É o  tempo da demagogia.

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