A eleição de Obama à presidência dos Estados Unidos foi saudada no Brasil como um grande avanço da democracia americana, ao colocar na presidência do país mais poderoso do mundo um negro, o que suscitou inclusive comparações com nossa trajetória democrática. Alguns não deixaram de sublinhar, com base em declarações do próprio candidato, sua postura pós-racial, a vontade de superar as divisões da sociedade americana. Ainda assim, a insistência no critério racial continuou a frequentar o cenário nacional, e uma editora se apressou em republicar uma obra há muito esquecida de Monteiro Lobato, O Presidente Negro, um romance involuntariamente racista.

A votação triunfal e a inauguração em grande estilo foram, sem dúvida, motivos de orgulho para a comunidade negra americana. Eles também sensibilizaram a comunidade negra brasileira, que se pergunta, certamente, quando o mesmo ocorrerá no Brasil. A despeito das diferenças de estruturas sociais e, sobretudo, de mentalidades, Brasil e Estados Unidos possuem um passado comum, escravocrata e discriminatório, que não é absolutamente motivo de orgulho para suas sociedades contemporâneas. Uma outra diferença, porém, se insinua atualmente, e pode se aprofundar no futuro previsível.

Enquanto os Estados Unidos caminham – agora mais decisivamente, sob Obama – em direção a uma agenda pós-racial, com posições firmes do novo presidente em favor da educação de qualidade como fator de elevação social e cultural de todos os americanos, formadores de opinião no Brasil – não apenas na comunidade negra – continuam saudando a eleição de um presidente “negro” e achando, talvez, que isso poderá reforçar políticas de promoção da “igualdade racial” e de reparação das imensas perdas acarretadas por nosso passado escravista.

O governo atual – com base em iniciativas adotadas ainda sob FHC – criou um conjunto quase completo de programas de afirmação racial, focadas na quase totalidade na população “afro-brasileira”, e estimula novas iniciativas e medidas na mesma linha. A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial se inspira em supostos programas de ação afirmativa nos EUA para também implementar no Brasil o princípio das cotas raciais no serviço público e nas instituições de ensino. Existe um plano de ação Brasil-Estados Unidos para eliminar a discriminação racial e étnica e promover a igualdade, decorrente de um acordo assinado em março de 2008 entre a Seppir e o Departamento de Estado. Ora, onde o Brasil precisa menos imitar os EUA é nessa mania esquizofrênica de classificar os cidadãos por raças.

O conceito de afro-brasileiro, por exemplo, é uma importação clandestina dos EUA, país no qual, ao longo do século 20, os antigos niggers passaram a ser colored people e, depois, blacks, para se converter, a partir dos anos 60, em African-Americans. O processo de “hifenização” dos negros americanos é claramente uma construção ideológica, pois nenhum deles tem, hoje, qualquer coisa de africano, como tampouco no Brasil, aliás. Curiosamente, um dos poucos americanos que poderiam se classificar dessa forma é o próprio Obama, legitimamente, diga-se de passagem. Todos os seus demais concidadãos da mesma cor são simplesmente negros americanos, ou brown, como eles chamam os mestiços.

É realmente uma pena que, no mesmo momento em que os EUA, sob a liderança de Obama, estejam buscando superar, efetivamente, o seu passado de discriminação e de injustiças estabelecidas com base em um Apartheid legal, militantes da causa racialista no Brasil estejam querendo construir um Apartheid de fato. Esse tipo de política divisiva, de cunho retrógrado, já foi condenada por Obama em seu famoso discurso da Filadélfia, no dia 18 de março de 2008 (texto e vídeo neste link). Os brasileiros fariam bem em ler esse discurso. Nele está contida a certeza de que o caminho não é mais a divisão em raças, ou políticas para apenas uma delas, e sim o investimento em boas escolas para todos, em saúde e bem-estar para negros, mestiços e brancos. Esta é a mensagem de Obama para os Estados Unidos. Ela vale também para o Brasil…

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