A questão da narrativa

Fábio Giambiagi

Aproximamo-nos de 2014 e o governo federal começa a se ver às voltas com um problema que há um ou dois anos não imaginava ter de enfrentar: está ficando sem discurso.

Em política, quando se é governo, há sempre uma questão importante a decidir: que história será contada? O termo aqui não tem o significado de “lorota”, e sim de narrativa, ou seja: que aspectos serão enfatizados na propaganda oficial? Fernando Henrique Cardoso (FHC) era o “candidato da estabilidade” e Lula, o “candidato da inclusão social”, assim como a então candidata Dilma Rousseff, em 2010, foi apresentada como a “candidata da continuidade” e “grande gestora”. Os radares sempre atentos do publicitário João Santana devem estar começando a captar sinais de uma nova mensagem, cujo significado é inequívoco. Parodiando uma conhecida frase da época das missões à Lua, a tradução é: “Houston, temos um problema”. A pergunta é: o que contar?

Governos precisam ter aquilo que os vizinhos da língua hispânica chamam de “relato”. “Relatos”, discursos, podem ser realistas ou uma completa fantasia e podem ser expressos em linguagem agressiva ou em formato “light”, mas, no mundo das campanhas eleitorais, eles têm de existir. Governos que não têm uma “cara” clara têm maiores dificuldades para se eleger do que outros que comunicam o que vieram fazer e o que pretendem fazer de forma clara, sintética e crível. Aos olhos da população, FHC era a cara da estabilidade, assim como Lula era a cara da inclusão social e Dilma era a “mãe do PAC”.

Isso posto, em 2014, Dilma será o quê? A importância da pergunta não pode ser desprezada pelo fato de a presidente gozar de elevada popularidade. De que ela vai entrar na eleição como favorita não há a menor dúvida. Que a oposição tem dificuldades para se posicionar é de uma evidência acachapante. Porém, não podemos esquecer três coisas. Primeiro, por enquanto, ela está sozinha em campo. Segundo, na eleição, qualquer governo é crivado de críticas. E terceiro, políticos que hoje a apoiam não estarão com ela daqui a um ano. Ninguém ganha jogo de véspera.

O governo começará bem colocado o processo eleitoral, mas a falta de um discurso convincente é um déficit que terá de enfrentar

Há três discursos potenciais que poderiam ser assumidos pela presidente. O primeiro é o da inclusão social, é claro. O problema é que o que ganha uma ou duas eleições não necessariamente ganha a terceira. O PSDB aprendeu isso ganhando a eleição em 1994, sofrendo para vencer a de 1998 e perdendo a de 2002: noves fora a circunstância de que em 2002 a inflação não era exatamente nula, o fato é que na época a estabilidade, oito anos depois do lançamento do Plano Real, não era mais suficiente para vencer. Analogamente, é claro que ninguém está insatisfeito com a maior inclusão social, mas esse tema já entrou na categoria das conquistas coletivas da população e o sentimento de “quero mais” do eleitor tende sempre a depreciar a importância relativa de conquistas inicialmente muito valorizadas. “Slogans” como “vamos criar mais empregos” ou “vamos combater a miséria” não têm o mesmo apelo que tinham há cinco ou dez anos.

O segundo discurso possível é o da boa gestão. O problema aqui é: mostrar o quê? Vejamos as possibilidades.

Pode-se falar do PAC? Digamos que o brilho dele, com todos os atrasos, é eleitoralmente muito menor do que nas eleições de 2010. Seria o caso de enfatizar como o Brasil se preparou bem para a Copa do Mundo de 2014? O problema é que não creio que exista um único brasileiro que tenha orgulho de nossos aeroportos.

Talvez o governo poderia exaltar as maravilhas do setor elétrico, para se contrapor à crise do “apagão” de 2001. Há um pequeno senão: se no próximo verão não chover bastante, a restrição energética que não tivemos em 2013 poderá acontecer em 2014.

Estradas, portos, ferrovias? Nada disso está pronto. Não há, portanto, muito o que exibir nesse campo.

O terceiro discurso que o governo poderia adotar para “tocar bumbo” é o dos juros baixos. “A presidente que baixou os juros” é sempre um belo filão para explorar eleitoralmente. Bancos são sempre um bom “vilão”, em qualquer país, e juro baixo é algo que traz benefícios perceptíveis para a população. O risco, porém, é de que, se as pressões inflacionárias levarem o governo a ter de elevar a taxa Selic nos próximos meses, esse discurso será equivalente a tentar vender aquecedores na praia num domingo de 40 graus – vai parecer conversa de doido.

Em resumo, o governo começará bem colocado o processo eleitoral, mas a falta de um discurso convincente é um déficit que terá de enfrentar. Ressalte-se, é bom que se diga, que este é um problema comum a seus possíveis adversários, pois Eduardo Campos (se for candidato) teria dificuldades para explicar por que não estaria apoiando Dilma; Aécio Neves enfrentará os mesmos questionamentos feitos ao PSDB acerca do que ele tem a propor; e Marina Silva terá de se livrar do estigma de ser “apenas” a “candidata dos verdes”. A diferença desta vez é que, numa eleição difícil, o governo também não teria um bom discurso a fazer. Por isso, os marqueteiros terão muito trabalho em 2014!

Fonte: O Estado de S. Paulo, 18/03/2013

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