“Collective decisions are most likely to be good ones when they’re made by people with diverse opinions reaching independent conclusions, relying primarily on their private information.” (James Surowiecki) No livro The Wisdom of Crowds, James Surowiecki defende a tese de que as multidões desfrutam de mais sabedoria do que se imagina. Para apresentar tal sabedoria, entretanto, um grupo de indivíduos precisa preencher quatro condições: diversidade de opiniões, independência de julgamento, descentralização e agregação. É uma idéia contra-intuitiva a princípio, mas a suposta sabedoria das multidões tem lógica, além de mostrar evidências empíricas a seu favor. O segredo é que os erros das estimativas individuais, quando se satisfazem as condições apontadas, acabam se anulando em um grande número de opiniões. Caso tais requisitos não sejam preenchidos, não há erros aleatórios, mas sim um viés, onde as opiniões não são realmente independentes e individuais; estaríamos diante de um grupo monolítico, com pura emoção e nenhuma razão, adquirindo um senso de invencibilidade e irresponsabilidade incontroláveis – como dizia Gustave Le Bon, ao se referir à “psicologia das massas”. Surowiecki reconhece que, na maioria das coisas, média quer dizer apenas mediocridade. Mas no processo de tomada de decisão, freqüentemente pode significar excelência, quando satisfeitas as condições necessárias. Ele cita como exemplo a ferramenta de busca Google, cujo algoritmo baseia-se justamente na sabedoria das multidões, dando maior peso para as páginas mais visitadas na hora da pesquisa. A enciclopédia Wikipedia também seria baseada no princípio da sabedoria das multidões. Na verdade, o livre mercado é justamente isso, um processo onde as multidões, com suas escolhas individuais e independentes, selecionam as melhores alternativas de acordo com suas preferências. No começo do século XX, centenas de empresas disputavam para ver quem ofereceria a melhor alternativa para os consumidores em termos de automóveis. Havia uma gama enorme de variedades, inclusive com diferentes tecnologias. Poucas, entre essas centenas, sobreviveram. Eram as que melhor atendiam à demanda. As multidões de consumidores tinham decidido. O mesmo padrão se repete em diversas outras indústrias. Para o melhor funcionamento deste processo, devemos ter a maior diversidade de alternativas possível, com novas idéias surgindo o tempo todo. Claro que, desta maneira, a maioria irá se tornar um fracasso. Mas as poucas vencedoras são as que farão a diferença. A habilidade de rápido reconhecimento e freio das idéias perdedoras é que torna o sistema eficiente. A premissa adotada na teoria da sabedoria das massas é bastante atraente e sólida. Diz respeito ao conhecimento disperso, contido de forma totalmente pulverizada na sociedade. Nenhum ser ou pequeno grupo de pessoas poderia absorver todas as informações espalhadas entre milhões de indivíduos. O economista austríaco Hayek defende tal tese com perfeição, e sua influência não passa despercebida pelo autor do livro. Ela vai contra a visão platônica de um grupo de “sábios iluminados” que poderão escolher melhor pelo resto todo. A informação está totalmente dispersa, além das preferências serem subjetivas. Um processo de livre escolha individual, em um ambiente de regras básicas e bem definidas, pode apresentar, portanto, resultados infinitamente melhores que aqueles oriundos de poucos “sábios”. Até mesmo na natureza, observando animais irracionais, vemos uma certa ordem espontânea surgir sem a figura do líder “iluminado”. Seria fazer muito pouco caso do homem, animal racional, supor que cada indivíduo é um completo mentecapto que necessita da direção traçada por um ser “clarividente”. Na livre interação entre indivíduos, respeitando-se as regras definidas previamente, há um claro incentivo à cooperação, assim como a confiança mútua passa a ser um valioso ativo. Preservando-se a diversidade, independência, descentralização e agrupamento cooperativo, não há porque acreditar que o resultado não será superior àquele obtido por um processo centralizado nas mãos de poucos “especialistas”. Há sabedoria nas multidões. E o livre mercado é o mecanismo de sua expressão.

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