“Devemos considerar as coisas concernentes ao nosso conforto e desconforto só com os olhos da razão e do juízo, consequentemente, com ponderação fria e seca.” (Schopenhauer)

Em 21 de setembro de 1860, há exatos 150 anos, morria o filósofo alemão Arthur Schopenhauer.

Seu legado é profundo, incluindo enorme influência em pensadores como Nietzsche e Freud. Contra o obscurantismo pedante de filósofos do seu tempo, que muitas vezes servia apenas para disfarçar a ausência de conteúdo, Schopenhauer transmitiu sua mensagem de forma bastante clara.

Em homenagem ao aniversário de sua morte, vamos refletir sobre a atualidade de alguns de seus aforismos.

“Um homem vale por aquilo que sua conduta evidencia, não pelo que agrada a uma língua solta dizer sobre ele.” Esta constatação anda muito ignorada no país das bravatas, onde a retórica sensacionalista parece valer mais que os atos concretos. Os discursos verborrágicos impressionam mais do que o conteúdo das pessoas. Tem muita “língua solta” — e presa também — tentando levar no grito o respeito alheio. Mas palavras e gestos, com frequência, expõem gritante contradição.

“O tipo mais barato de orgulho é o orgulho nacional. Ele trai naquele que por ele é possuído a ausência de qualidades, das quais poderia se orgulhar.” Como desprezar este fato quando a liberdade individual é cada vez mais sufocada pelo coletivismo nacionalista? Em nome do “interesse nacional”, oportunistas acabam explorando os inocentes e concentrando poder e privilégios à custa de nossas liberdades básicas. O tal “orgulho nacional” não deveria estar acima dos direitos individuais.

“Quem tem de produzir o bom e o autêntico e evitar o ruim tem de desafiar o juízo das massas e de seus portavozes e, portanto, desprezá-los.” Recado essencial quando tantos tentam associar qualidade à popularidade: ambos não são sinônimos. A ditadura do “politicamente correto” é outro efeito desta mentalidade, como se a escolha da maioria fosse a “voz de Deus”. Tratase, na prática, de uma tirania das massas.

Nem tudo que é popular é bom: basta lembrar que Mussolini e Hitler foram idolatrados por seus povos.

“Não devemos procurar desculpas, atenuar ou diminuir erros que foram manifestamente cometidos por nós, mas confessá-los e trazê-los, na sua grandeza, nitidamente diante dos olhos, a fim de poder tomar a decisão de evitá-los no futuro.” O conselho do filósofo bate de frente contra a típica postura que vemos na política, onde cada um que é apanhado em novo escândalo logo se justifica com base nos erros alheios. “Se outros fazem, então também posso fazer.” Esta atitude serve apenas para alimentar a corrupção.

“Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa.” Este talvez seja o alerta mais importante feito por Schopenhauer.

Os verdadeiros inimigos não aparecem vestidos de lobos, mas sim de cordeiros. São os “altruístas”, que pensam apenas no “bem geral”, que pretendem viver em função dos mais pobres.

Em suma, a verdadeira ameaça vem daqueles que prometem o paraíso, e costumam entregar o inferno.

“Se desconfiarmos que alguém mente, finjamos crença: ele há de tornar-se ousado, mentirá com mais vigor, sendo desmascarado.” Esta estratégia poderia ser mais utilizada contra os governantes, mestres na arte da enganação.

Basta dar um pouco de corda que a situação daqueles pegos em infindáveis escândalos logo se complica. Já diz o ditado: a mentira tem perna curta. O espantoso é que a máscara de muitos já deveria ter caído faz tempo, mas o povo não quer enxergar a face verdadeira por detrás dela.

“Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direção que a mudança tomará.” O recado merece atenção especial daqueles que parecem hipnotizados com o momentâneo crescimento econômico, ignorando seus pilares insustentáveis e também o avanço do governo sobre nossas liberdades.

A miopia faz com que o curto prazo ganhe um peso desproporcional na análise da situação.

Por fim, após tanto pessimismo, uma última mensagem mais esperançosa: “É preciso ser paciente, pois um homem de intelecção justa entre pessoas enganadas assemelha-se àquele cujo relógio funciona com precisão numa cidade na qual todos os relógios de torre fornecem a hora errada.” O tempo é o senhor da razão.

Quem ainda não perdeu a capacidade de indignação perante tantos escândalos políticos está apenas com o relógio certo no momento errado.

A torre da cidade ainda marcará a hora certa algum dia.

Quem viver, verá.

Fonte: Jornal “O Globo” – 21/09/10

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